Professor da UFJF-GV explica o poder de atletas na sociedade

A presença do hexacampeão de F1, Lewis Hamilton, na passeata contra o racismo realizada no último domingo (21) em Londres na Inglaterra e o erro do tenista sérvio Novak Djokovic em realizar um evento sem seguir protocolos de segurança de prevenção ao Coronavírus, trouxe uma série de discussões sobre o compromisso social e a influência que atletas de ponta exercem na sociedade.

A luta de Hamilton contra o racismo, colocou o piloto inglês em um patamar comparável ao do boxeador Muhammad Ali e do corredor Jesse Owen, que aproveitaram os holofotes sobre suas vitórias para dar visibilidade à importância do combate ao racismo. Tal afirmativa foi feita pelo professor de Educação Física e membro do Laboratório de Psicologia do Esporte e do Exercício (LAPE) do Campus Governador Valadares da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-GV), Danilo Reis Coimbra. Segundo ele, a luta de Lewis Hamilton contra o racismo clamou seus colegas da categoria para se posicionar sobre o caso:

“Ao se posicionar, Hamilton coloca luz em algo que muitas vezes poderia passar despercebido, mesmo para os aficionados em Fórmula 1. Lewis Hamilton é o segundo negro (o primeiro foi Willy T. Ribbs Jr) a disputar a categoria, isso por si só, já seria plausível para explicar sua postura contra o racismo. Mas foi além, clamou seus colegas da categoria para se posicionar e esteve presente nas manifestações em Londres. A mensagem que passa é de identificação com a causa antirracista”.

Quanto ao caso do tenista sérvio Novak Djokovic, que organizou o torneio “Adria Tour”, sem protocolos de segurança de prevenção ao Coronavírus. O tenista testou positivo para a doença, junto com outros três atletas. Além disso, o evento foi aberto ao público, no entanto a maioria não utilizava máscaras. De acordo com o professor Danilo Reis Coimbra, a conduta de Djokovic é um péssimo exemplo para a sociedade:

“Não sei se foi o caso, mas a mensagem que passa é que para ele, por ser atleta, renomado, as regras de isolamento e distanciamento não se aplicam. Todos estão se sacrificando para um bem comum. Outro exemplo, está na justificativa que deu para amenizar a repercussão dos seus atos, de que o evento era para fins filantrópicos, como se isso o isentasse de responsabilidade”.

O professor ressalta que a crise de saúde pública exige responsabilidade de todos e que, como figuras públicas, os atletas podem ajudar com exemplos positivos:

“Assim como cantores e artistas, o seu posicionamento é fundamental, ainda mais nesses tempos, onde a atenção de todos está voltada para a situação da pandemia. Nesse sentido, algumas iniciativas são bem importantes e efetivas, como campanhas de arrecadação de alimentos (por exemplo, recentemente, em parceria com um de seus patrocinadores, a equipe do JF Vôlei conseguiu arrecadar mais de duas toneladas de alimentos e doar aos alunos do próprio projeto sócio esportivo do JF Vôlei). Com a crise econômica, muitas dessas famílias ficaram sem o básico em suas casas. Ou seja, o atleta ou equipe tem condições de influenciar e agir localmente, para impactar globalmente”.

Influência de atletas no comportamento da sociedade

É notável que alguns atletas do esporte têm uma característica marcante, que acaba gerando influência no comportamento das pessoas. Exemplo disso foi o corte de cabelo estilo “cascão”, feito pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno na Copa do Mundo de 2002, que virou moda entre crianças e adolescentes. Ou até mesmo a comemoração do português Cristiano Ronaldo ao marcar um gol e grita “siiiiiiiiiu”. O grito do jogador virou febre em torcedores do mundo inteiro. 

Outro exemplo é o modelo de calçado do ex-jogador de basquete Michael Jordan, lançado na década de 90 e até hoje é sucesso no mercado. O professor Danilo Reis Coimbra diz que estes são apenas alguns exemplos  que demonstram o poder de influência de atletas, e que o marketing permite aproximação de atletas com seus fãs:

“Por isso, grandes marcas querem associar o seu produto a atletas de destaque. De modo geral, nos sentimos mais próximos aos nossos ídolos ao utilizar a mesma roupa, o mesmo tênis, o mesmo celular”, 

No entanto a questão comercial e social, pode em certas circunstâncias, podem inibir a participação do atleta em temas que fujam do esporte. Para Danilo, o envolvimento do atleta pode comprometer sua imagem com os fãs e também na questão comercial:

“Não sou capaz de afirmar o porquê cada um não se posiciona, pois envolve crenças, valores, formação familiar e traços individuais. Entretanto, de maneira geral, temos algumas hipóteses. Por exemplo, a série documentário do Michael Jordan (“Arremesso Final”), que conta a sua história como atleta do Bulls na década de 90. Em umas das passagens, Jordan foi cobrado inclusive por sua mãe para se posicionar favorável a Harvey Gantt, que tentava ser o primeiro senador negro da Carolina do Norte. O adversário era Jesse Helms, conservador do Partido Republicano, que se colocava favorável à segregação nas escolas e contrário à criação do feriado em homenagem a Martin Luther King Jr. Mas Jordan se manteve isento, e ainda deu uma declaração que também não foi muito bem vista:  ‘Republicanos também compram tênis’,  uma alusão ao modelo Air Jordan, sucesso de vendas”

O professor complementa que ao não se posicionar sobre temas que fujam do esporte, o atleta evita riscos à própria imagem na mesma medida em que perde a oportunidade de pautar algo que pode refletir positivamente para o esporte e para a sociedade. “Obviamente, toda exposição tem um bônus e tem um ônus”.

 

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