Ao longo do século XIX, o debate sobre a origem da diversidade biológica estruturou-se fundamentalmente em torno de duas concepções opostas: o fixismo e o evolucionismo. O fixismo sustenta que cada grupo de seres vivos foi criado como um tipo definido, dotado de estabilidade própria, incapaz de transformar-se essencialmente em outro ao longo do tempo. Já o evolucionismo propõe que todas as formas de vida derivam de uma ancestralidade comum, por meio de mudanças graduais acumuladas ao longo de vastos períodos. Essas duas explicações competem entre si para dar conta do mesmo conjunto de fatos empíricos, o que torna legítima a aplicação da “navalha de Ockham” que consiste em estabelecer um princípio racional básico: entre hipóteses concorrentes, deve-se preferir aquela que explica os dados com menor número de pressupostos especulativos.

Quando se observa a natureza de modo sistemático, o primeiro dado relevante é a organização objetiva da vida em categorias discretas. A classificação proposta por Carl Lineu estabeleceu um sistema baseado em padrões reais observáveis que hierarquiza os seres vivos em reino, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie, sendo esta última a unidade fundamental. A espécie é definida como um conjunto de organismos semelhantes que compartilham um mesmo patrimônio genético e que, em condições naturais, reconhecem-se mutuamente e produzem descendentes férteis. Essa definição implica fronteiras reprodutivas claras: espécies distintas são geneticamente incomunicáveis.

Essa incomunicabilidade genética é um fato reiteradamente confirmado pela experiência. Cruzamentos entre espécies diferentes, quando possíveis, tendem a resultar em híbridos inviáveis ou estéreis. Um exemplo clássico é o da mula que é o produto do cruzamento entre cavalo e jumento e que nasce estéril. A incompatibilidade cromossômica impede a formação adequada de gametas, tornando impossível a continuidade da linhagem híbrida. O que se observa, portanto, não é a intercambialidade entre espécies, mas a preservação rigorosa de suas identidades genéticas. E o afastamento vai se intensificando na medida em que se avança para os estratos superiores na classificação de Lineu.

Tal fato empírico ganhou alicerces sólidos na genética ainda no mesmo século XIX em razão dos experimentos de Gregor Mendel. Ao estudar a transmissão hereditária de características em ervilhas, Mendel demonstrou que as variações observáveis obedecem a leis matemáticas precisas e permanecem confinadas ao interior da mesma espécie. Em nenhum momento seus resultados sugerem que o acúmulo dessas variações seja capaz de transpor os limites específicos e gerar um novo tipo biológico. Pelo contrário, Mendel afirmou explicitamente que cada espécie possui limites fixos além dos quais não pode mudar. Mesmo quando surgem mutações ou combinações novas, o sistema tende ao retorno da estabilidade, preservando o tipo original. Assim, a genética mendeliana reforça a ideia de diversidade interna sem transformação essencial, oferecendo base experimental à noção de constância dos grupo de seres vivos.

Diante desse quadro, o evolucionismo recorre frequentemente ao argumento do tempo profundo: as transformações não seriam observáveis porque exigiriam milhões de anos. No entanto, quando se examina o registro fóssil, que é a principal fonte empírica para testar essa hipótese, o que se encontra não é uma sequência contínua de formas intermediárias, mas o surgimento abrupto de organismos plenamente formados.

O caso mais emblemático é a chamada explosão cambriana, período em que praticamente todos os grandes filos animais aparecem de maneira súbita, sem ancestrais evidentes nas camadas anteriores. O próprio Charles Darwin reconheceu que essa emergência repentina constituía uma das mais sérias objeções à sua teoria, dedicando-se a explicações especulativas para tentar atenuar o problema.

Antes mesmo de Darwin, o paleontólogo Georges Cuvier já havia interpretado o registro fóssil como uma sucessão de faunas descontínuas, separadas por rupturas claras. Para Cuvier, se a transformação gradual fosse real, os fósseis intermediários deveriam ser abundantes, mas simplesmente não aparecem. As camadas geológicas mostram a existência de conjuntos completos de organismos, cada qual coerente e funcional em si mesmo. Essa leitura harmoniza-se naturalmente com a ideia de surgimento súbito dos tipos biológicos, ao passo que exige menos conjecturas auxiliares do que as reconstruções evolucionistas baseadas em formas hipotéticas ausentes do registro empírico.

É nesse ponto que a navalha de Ockham assume pleno valor heurístico. A hipótese evolucionista necessita postular longos períodos invisíveis, mecanismos não observáveis diretamente e cadeias causais altamente especulativas para explicar a origem das espécies. A tese do surgimento simultâneo e da fixidez, por outro lado, ajusta-se de modo direto aos dados disponíveis: espécies discretas, geneticamente isoladas, com variação interna limitada; leis de herança que preservam a estabilidade dos tipos; e um registro fóssil marcado por aparições abruptas e ausência de transições graduais. Trata-se de uma explicação conceitualmente mais simples e empiricamente suficiente.

Conclui-se, portanto, que, à luz da navalha de Ockham, a interpretação mais econômica e coerente é aquela que reconhece que os grupos de seres vivos foram criados como unidades fixas. A diversidade biológica não resulta de um processo cego e especulativo de transformações intermináveis, mas da ação inteligente que instituiu tipos estáveis, dotados de capacidade de variação interna, porém protegidos por limites objetivos.

Assim, a resposta que melhor satisfaz o critério da simplicidade explicativa é que Deus criou todas as espécies segundo sua própria natureza, completas desde a origem.




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