{"id":90826,"date":"2018-01-31T16:48:29","date_gmt":"2018-01-31T18:48:29","guid":{"rendered":"http:\/\/diarioregionaljf.com.br\/2018\/01\/31\/a-triste-realidade-do-ostracismo\/"},"modified":"2018-01-31T16:48:29","modified_gmt":"2018-01-31T18:48:29","slug":"a-triste-realidade-do-ostracismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=90826","title":{"rendered":"A triste realidade do ostracismo"},"content":{"rendered":"<p>O tempo passa para todos. At\u00e9 a\u00ed, nenhuma novidade. Mas parece passar muito mais para aqueles que, por uma raz\u00e3o ou outra, ca\u00edram no ostracismo. Se isolaram ou se exclu\u00edram, por imposi\u00e7\u00e3o ou mesmo voluntariamente, seja no meio social ou em outras atividades que antes eram habituais. S\u00e3o milhares por esse mundo afora. Ficam completamente esquecidos. O cidad\u00e3o ostracizado existe na estrada como dentro de sua pr\u00f3pria comunidade. Ele tem consci\u00eancia do isolamento, mas em alguns momentos percebe que determinados grupos, mesmo sabendo da import\u00e2ncia que ele representou, num passado n\u00e3o t\u00e3o distante, procuram n\u00e3o falar sobre seus bons feitos. Quando falam, buscam o aspecto negativo, passando por cima das boas a\u00e7\u00f5es realizadas.<\/p>\n<p>O ostracismo est\u00e1 presente nos meios art\u00edsticos, nos meios pol\u00edticos e at\u00e9 religiosos. O ostracizado, \u00e0s vezes, chega a ser dado como morto, de t\u00e3o esquecido que fica. N\u00e3o raras as vezes que nos deparamos com algu\u00e9m que pergunta: o fulano est\u00e1 sumido, ser\u00e1 que j\u00e1 morreu? Quando a resposta \u00e9 negativa, ou seja, que est\u00e1 vivo, a gente nota que a indaga\u00e7\u00e3o teve uma boa dosagem de mal\u00edcia. Ele sabe que o cara n\u00e3o morreu, mas externa visivelmente a sua ironia e, na realidade, l\u00e1 bem no fundo do seu \u00edntimo, est\u00e1 dizendo: j\u00e1 deveria ter morrido.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de quatro anos, quando retornava de um curso que estava fazendo de an\u00e1lise pol\u00edtica, vi um jovem senhor maltrapilho, completamente sujo, sentado na cal\u00e7ada em frente o pr\u00e9dio. Ele lia um livro e n\u00e3o estendia a m\u00e3o para mendigar qualquer tipo de esmola. No dia seguinte a mesma coisa. Sempre que eu ali passava, estava ele. Era comum alguns dos alunos se aglomerarem na cal\u00e7ada para falar sobre a mat\u00e9ria do dia. Ele levantava a cabe\u00e7a, deixando a concentra\u00e7\u00e3o de sua leitura, ficando por um bom tempo com suas antenas ligadas ao assunto. Confesso que fiquei bastante curioso com a presen\u00e7a sempre constante daquele homem que para mim n\u00e3o significava um simples andarilho estacionado numa cal\u00e7ada. Um dia resolvi, de maneira cuidadosa, puxar assunto, perguntado se ele estava precisando tomar um caf\u00e9 ou comer alguma coisa. Ele gentilmente agradeceu e respondeu que estava bem alimentado, retomando sua leitura.<\/p>\n<p>Inconformado com o insucesso da minha investiga\u00e7\u00e3o, arrisquei dizer que eu pertencia a um \u00f3rg\u00e3o de controle de moradores de rua e que precisava ver seus documentos. Para minha surpresa, ele retirou de sua surrada mochila uma sacola contendo uma farta documenta\u00e7\u00e3o, onde havia uma carteira de engenheiro mec\u00e2nico. Para chegar ao fio da meada, disse a ele que j\u00e1 havia levado uma vida id\u00eantica durante muitos anos e que um dia resolvi me reintegrar ao conv\u00edvio social, sendo motivo de muita alegria para meus familiares. N\u00e3o foi dif\u00edcil saber que ele havia ca\u00eddo no ostracismo voluntariamente.<\/p>\n<p>Estava ali um homem bem sucedido financeira e profissionalmente que a poeira das estradas havia adotado como um de seus andarilhos. Entrei em contato com a fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo e, em poucas horas, m\u00e3e, esposa e as duas filhas j\u00e1 se abra\u00e7avam entre sorrisos e l\u00e1grimas, por t\u00ea-lo de volta depois de cinco anos de aus\u00eancia. Enquanto comemoravam o feliz encontro, fui me distanciando sem que percebessem, n\u00e3o para evitar a continua\u00e7\u00e3o de agradecimentos, mas para evitar ouvir aquela velha e surrada proposta: voc\u00ea merece uma recompensa pela boa a\u00e7\u00e3o que teve. \u00c0 dist\u00e2ncia, pude ver que olhavam para todos os lados me procurando.<\/p>\n<p>Minha recompensa est\u00e1 em ter tirado do ostracismo, da poeira das estradas, uma pessoa n\u00e3o s\u00f3 pela sua import\u00e2ncia profissional e sim pelo ser humano que se isolou do mundo, cujo motivo preferi n\u00e3o perguntar, j\u00e1 que n\u00e3o tinha o direito de invadir sua privacidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Carlos Letra &#8211; Jornalista, escritor e colunista; Ex-Assessor de Imprensa do SUS-RJ e Ex-Assessor de imprensa e Assessor Parlamentar na C\u00e2mara Municipal de Juiz de Fora<\/strong><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo passa para todos. At\u00e9 a\u00ed, nenhuma novidade. 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