{"id":225461,"date":"2024-11-18T16:47:36","date_gmt":"2024-11-18T19:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=225461"},"modified":"2024-11-18T16:47:36","modified_gmt":"2024-11-18T19:47:36","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-conclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=225461","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Conclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, terminaremos esta alongada s\u00e9rie com dois artigos, este e o pr\u00f3ximo. Neste, buscaremos amarrar o racioc\u00ednio desenvolvido ao longo dos 20 precedentes, o pr\u00f3ximo tratar\u00e1 da contribui\u00e7\u00e3o de grupos que t\u00eam buscado (re)habilitar a hip\u00f3tese Deus na academia.<\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Nosso racioc\u00ednio se desenvolveu em tr\u00eas dimens\u00f5es: do campo acad\u00eamico, do paradigma cient\u00edfico e da cultural ocidental.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Procedemos semelhantemente \u00e0 cozinheira no ato de descascar uma cebola, removendo camada por camada, da casca em dire\u00e7\u00e3o ao centro. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Na casca e nas camadas superficiais encontramos o <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">modus operandi<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\"> do campo acad\u00eamico, com seus agentes e interesses. Os agentes (cientistas, acad\u00eamicos, pesquisadores) produzem conhecimento ao mesmo tempo em que lutam pelo capital simb\u00f3lico, buscando manter e aumentar seu prest\u00edgio, autoridade e, consequentemente, poder. As regras inerentes ao campo n\u00e3o se sedimentam t\u00e3o somente na busca pela verdade e, menos ainda, numa pretensa neutralidade objetiva. Diversamente, os cientistas profissionais s\u00e3o induzidos a instrumentalizar o conhecimento, n\u00e3o necessariamente para fazer a ci\u00eancia avan\u00e7ar, mas para ingressar no campo, circular nele, acumular capital e adquirir trof\u00e9us. Os indiv\u00edduos que pretendem entrar no campo, permanecer nele e ascender para posi\u00e7\u00f5es de destaque agem inconscientemente em favor da manuten\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio do campo e na defesa da validade do paradigma que o sustenta. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Portanto, a academia constitui um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o, de domina\u00e7\u00e3o e lutas tal como ocorre em qualquer outro campo social. A produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 a resultante da busca pelo conhecimento associado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que ocorre tal busca.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A atividade acad\u00eamica envolve um <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">habitus<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\"> que se assenta sobre determinada <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">illusio<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">. O primeiro refere-se \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es mentais e pr\u00e1ticas que s\u00e3o mutuamente construtivas num processo dial\u00e9tico de internaliza\u00e7\u00e3o\/influ\u00eancia operada entre o campo e os indiv\u00edduos que fazem parte dele. No campo acad\u00eamico, ele \u00e9 moldado por mecanismos relacionados \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos na academia (universidades, laborat\u00f3rios, <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">think thanks<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">, \u2026.). Acad\u00eamico \u00e9 todo aquele indiv\u00edduo que se adequa ao campo absorvendo seus valores e normas. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">habitus<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\"> acad\u00eamico estabelece os crit\u00e9rios para ingresso e perman\u00eancia, orienta a trajet\u00f3ria profissional e baliza as estrat\u00e9gias de ascens\u00e3o entre pares-competidores. \u00c9 dessa maneira que o campo condiciona as disposi\u00e7\u00f5es que orientam os acad\u00eamicos na escolha dos temas de pesquisa, na forma como escrevem, nas refer\u00eancias te\u00f3ricas que utilizam, e, sobretudo, naquilo que acreditam. O vocabul\u00e1rio, as disputas, seu capital t\u00edpico, as hierarquias internas e o valor dos trof\u00e9us s\u00e3o institu\u00eddos pelas din\u00e2micas internas ao campo e absorvidas pelos indiv\u00edduos no processo de socializa\u00e7\u00e3o que ocorre em seu interior. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O que importa para o assunto que estamos debatendo \u00e9 que o <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">habitus<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\"> determina, no n\u00edvel pr\u00e1tico (t\u00e1cito), o crivo do permiss\u00edvel ao mesmo tempo em que reproduz estigmas. Por raz\u00f5es que ser\u00e3o revistas a seguir, ele forma uma mentalidade cr\u00edtica e c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a conceitos metaf\u00edsicos ou de vi\u00e9s transcendente. Consequentemente, os acad\u00eamicos desenvolvem inconscientemente uma indisposi\u00e7\u00e3o com a ideia de Deus, e creem que tal pode \u201cafetar\u201d a sua investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 certamente a sua trajet\u00f3ria profissional, posto que a aceita\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 tida como incompat\u00edvel com os princ\u00edpios inerentes ao campo.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O conceito <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">illusio<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">, por sua vez, explica porque o acad\u00eamico, embora lide ordinariamente com a atividade reflexiva, n\u00e3o lan\u00e7a olhares cr\u00edticos sobre os seus pr\u00f3prios pressupostos. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O campo produz efeitos <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">illusio<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\"> quando seus participantes naturalizam as regras do campo. Os participantes aceitam \u201cjogar o jogo\u201d, internalizam-nas e, ent\u00e3o, la\u00e7am estigmas sobre ideias dissonantes e pessoas que as professam. Os agentes consideram natural rejeitar acriticamente determinadas abordagens que fogem ao seu <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">meti\u00ea<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">, da mesma maneira que aceitam se submeter a determinadas ideias sem as verificar, crendo que essa trama de cren\u00e7a e descren\u00e7a s\u00e3o obviedades, em outras palavras, constituem \u2018algo natural\u2019.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no campo est\u00e1 \u00a0condicionada tanto pelo <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">habitus<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">, quanto pelo <\/span><\/span><span class=\"s5\"><span class=\"bumpedFont15\">illusio<\/span><\/span><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">, ou seja, as teorias, m\u00e9todos e objetos considerados legitimos n\u00e3o s\u00e3o objetivamente ancorados em crit\u00e9rios de verdade, mas de validade. Sendo que a circunscri\u00e7\u00e3o do que \u00e9 v\u00e1lido \u00e9 feita respeitando duas condi\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que a escolha \u00e9 realizada pelos agentes do campo, em outras palavras, por aqueles que j\u00e1 se encontram comprometidos subjetivamente com determinadas teorias, m\u00e9todos e objetos. A segunda \u00e9 que o campo e, consequentemente, seus agentes, encontram-se enredados por um paradigma cient\u00edfico. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Retomando a imagem da cebola, nas camadas intermedi\u00e1rias atingimos o segundo n\u00edvel e nele encontramos o paradigma.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O paradigma \u00e9 o conjunto de pressupostos que determina e viabiliza a pr\u00e1tica cotidiana da reflex\u00e3o cient\u00edfico-filos\u00f3fica. Circunscreve o campo acad\u00eamico determinando leis, teorias, aplica\u00e7\u00f5es e instrumentos considerados v\u00e1lidos pela comunidade cient\u00edfica. Ele fornece os pressupostos te\u00f3ricos sobre os quais se assenta a reflex\u00e3o produzida no campo. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">As escolhas realizadas pelos agentes, embora racionais, n\u00e3o s\u00e3o livres; diversamente, decorrem dos pressupostos ancorados no paradigma vigente. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">\u00c9 necess\u00e1rio reconhecer que a influ\u00eancia \u00e9 m\u00fatua, influencia sendo influenciado. Ou seja, ao mesmo tempo em que o paradigma constr\u00f3i o campo acad\u00eamico \u00e9 constru\u00eddo por ele, num segundo processo dial\u00e9tico semelhante ao que se d\u00e1 entre o campo e seus agentes. Este fato explica a ocorr\u00eancia de mudan\u00e7as acumulativas ao longo do tempo. Por\u00e9m, \u00e9 igualmente premente constatar que tais modifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o necessariamente incrementais, sempre respeitando certas disposi\u00e7\u00f5es elementares que o caracteriza. As mudan\u00e7as ocorrem conservando o paradigma, as altera\u00e7\u00f5es se d\u00e3o nos limites da conserva\u00e7\u00e3o da identidade. Em outras palavras, as novidades se d\u00e3o invariavelmente comprometidas com certos princ\u00edpios que caracterizam o paradigma enquanto \u2018aquele paradigma espec\u00edfico\u2019.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Portanto, n\u00e3o se admite altera\u00e7\u00f5es substanciais que poderiam se dar por meio de saltos radicais. Se tal ocorrer n\u00e3o se est\u00e1 falando mais sobre \u2018aquele paradigma espec\u00edfico\u2019, mas a respeito da sua supera\u00e7\u00e3o na forma de uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (nos termos de Khun).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">No caso do paradigma atual, percebe-se duas caracter\u00edsticas fundamentais: seu car\u00e1ter \u00e9 imanentista e a sua fonte de legitimidade perante o campo e \u00e0 pr\u00f3pria sociedade \u00e9 a pretensa neutralidade racional do pensamento te\u00f3rico.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Em suma: o campo acad\u00eamico est\u00e1 enredado pelo paradigma imanentista que se sustenta na ideia de que a realidade \u00e9 equivalente (ou t\u00e3o somente) \u2018realidade imanente\u2019. Consequentemente, todas as perguntas cr\u00edveis est\u00e3o condicionadas a este imperativo e as respostas admitidas devem ser encontradas no mundo sens\u00edvel, sendo, portanto, objetada qualquer hip\u00f3tese que venha a escapa-lo.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Quando se observa tal base de legitimidade, percebe-se que seus imperativos revelam-se como esp\u00e9cies de f\u00e9 religiosa. Pois, o que leva o paradigma a afirmar que s\u00f3 existe o imanente e que o pensamento te\u00f3rico \u00e9 verdadeiramente imune \u00e0 contamina\u00e7\u00f5es? Tais afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o produtos do mesmo tipo de reflex\u00e3o preconizada, mas tratam-se de axiomas taxativos. Em outras palavras, n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias da pr\u00f3pria reflex\u00e3o te\u00f3rica, mas seus pressupostos que vicejam imunes \u00e0 cr\u00edtica.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Para demonstrar a fragilidade do paradigma imanentista, basta questionar se o fato de algo n\u00e3o ser \u2018natural\u2019 implica ser inexistente? Milhares de fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o respondidos a partir do primado da mat\u00e9ria, ent\u00e3o, por que \u00e9 menos cr\u00edvel arguir acerca de causas n\u00e3o-materiais do que afirmar, como se costuma fazer sempre que confrontado a casos embara\u00e7osos, que a resposta requer novas evid\u00eancias futuras que vir\u00e3o para salvar o dogma da mat\u00e9ria? <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Por outro lado, a fonte de legitimidade do paradigma \u00e9 o mito da neutralidade da reflex\u00e3o te\u00f3rica o que equivale ao mito da primazia da raz\u00e3o. Trata-se do dogma que afirma que a racionalidade \u00e9 precondi\u00e7\u00e3o do conhecimento verdadeiramente autoritativo.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O Iluminismo em geral e Kant em particular s\u00e3o os respons\u00e1veis por esta mistifica\u00e7\u00e3o. A pretensa objetividade neutra do pensamento te\u00f3rico n\u00e3o passa de outro axioma. Pois \u00e9 resultante de uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que se tornou contingencialmente o princ\u00edpio inquestion\u00e1vel do campo acad\u00eamico. Um dogma que poderia ser facilmente criticado em decorr\u00eancia de sua incongru\u00eancia interna, posto que a racionalidade \u00e9 admitida como selo de legitimidade da pr\u00f3pria racionalidade. Em outras palavras: o legado kantiano acredita que \u00e9 poss\u00edvel haver conhecimento objetivo em fun\u00e7\u00e3o do pensamento te\u00f3rico e a base dessa cren\u00e7a \u00e9 a pr\u00f3pria raz\u00e3o humana. Nada mais dogm\u00e1tico do que presumir que a raz\u00e3o pode por si mesma conferir legitimidade ao que a raz\u00e3o cria. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Conclu\u00edmos que o paradigma enraizou na ci\u00eancia dois mitos. Estes mitos dogm\u00e1ticos influenciam todo o resto da atividade cient\u00edfica, desde a forma como os fen\u00f4menos s\u00e3o apreendidos at\u00e9 a maneira como s\u00e3o interpretados, compreendidos e descritos.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Considerando a exposi\u00e7\u00e3o imediatamente anterior, procedemos ao longo da s\u00e9rie com pondera\u00e7\u00f5es acerca do que seja conhecimento leg\u00edtimo, buscando reabilitar o pensamento n\u00e3o-te\u00f3rico como sendo reflex\u00e3o v\u00e1lida, embora n\u00e3o detalhista. Por\u00e9m, o que importa nos limites tem\u00e1ticos deste trabalho n\u00e3o \u00e9 a natureza do pensamento, mas as ra\u00edzes do dilema da nega\u00e7\u00e3o da \u2018hip\u00f3tese Deus\u2019. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Para tanto, o problema da neutralidade racional \u00e9 percebido como o respons\u00e1vel por camuflar os pressupostos cosmovision\u00e1rios que bloqueiam a hip\u00f3tese Deus. Tal est\u00e1 firmado na cultura e n\u00e3o na atividade cient\u00edfica, como se ver\u00e1 a seguir quando atingirmos o centro da cebola. J\u00e1 o car\u00e1ter imanentista do paradigma, ordena que toda opera\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o te\u00f3rica ocorra exclusivamente dentro dos limites do pr\u00f3prio mundo observ\u00e1vel, atrav\u00e9s da natureza, suas leis f\u00edsicas e processos materiais. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Al\u00e7ando \u00e0 dimens\u00e3o pr\u00e1tica do car\u00e1ter imanentista do paradigma, percebe-se que na hist\u00f3ria recente ele se desdobrou em dois pilares. De um lado, o naturalismo sustenta a premissa de que os fen\u00f4menos do universo s\u00e3o explicados pelo pr\u00f3prio universo. De outro, o materialismo, que tem como premissa que a realidade \u00e9 constitu\u00edda exclusivamente por mat\u00e9ria e energia, e que todos os fen\u00f4menos, incluindo os mentais e sociais, s\u00f3 podem ser explicados em termos de intera\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e materiais. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Tais enfoques excluem causas sobrenaturais, argumentando que tudo o que existe e acontece deve ser compreendido atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise emp\u00edrica, mantendo-se restrito ao que \u00e9 imanente, ou seja, inerente \u00e0 natureza e ao mundo f\u00edsico.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Esses pressupostos t\u00eam obtido sucesso em muitas \u00e1reas, proporcionando avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Contudo, eles tamb\u00e9m imp\u00f5em restri\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas que limitam a capacidade da ci\u00eancia de explorar e explicar fen\u00f4menos que n\u00e3o se encaixam perfeitamente dentro desse herm\u00e9tico quadro te\u00f3rico-metodol\u00f3gico. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">As diversas ci\u00eancias especiais que se desenvolvem com o estudo de partes espec\u00edficas da realidade acabam sintetizando respostas provis\u00f3rias para os dilemas essenciais, sempre focalizando em seu pr\u00f3prio campo de interesse, negando ou negligenciando os demais e, consequentemente, se afasta da unidade de sentido que \u00e9 aquela que realmente importa quando lidamos com a realidade no dia a dia, na reflex\u00e3o ordin\u00e1ria. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Tal situa\u00e7\u00e3o produz o fen\u00f4meno dos \u201cismos\u201d (economicismo, historicismo, biologismo,\u2026) que acaba sendo a consequ\u00eancia, igualmente reveladora, da incapacidade do campo sintetizar respostas satisfat\u00f3rias para quest\u00f5es existenciais nos limites do paradigma imanentista. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O insucesso do empreendimento cient\u00edfico-filos\u00f3fico quando confrontado aos temas essenciais da exist\u00eancia j\u00e1 \u00e9 patente, demonstrando o exaurimento do duplo eixo do paradigma. Por\u00e9m, sua crise \u00e9 um evento traum\u00e1tico que tende a ser refreado ao limite, posto que \u00e9 permeado de resist\u00eancias. Consequentemente, a insatisfa\u00e7\u00e3o com o naturalismo e com o materialismo engendra, em primeiro lugar, frustra\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria atividade cient\u00edfica, produzindo o desalentador fen\u00f4meno cultural da p\u00f3s-verdade. Por outro lado, verifica-se a emerg\u00eancia do relativismo que, para n\u00e3o negar a natureza imanentista do paradigma, opta em atacar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de verdade. Nada mais frustrante, esterilizante e perigoso.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">No centro da cebola descascada detectamos a raiz do dilema, o motivo-base que enla\u00e7a n\u00e3o apenas a atividade intelectual mas a pr\u00f3pria cultura ocidental.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A cosmovis\u00e3o prevalecente no Ocidente contempor\u00e2neo \u00e9 condicionada por dois motivos-b\u00e1sicos, o primeiro deles \u00e9 o da natureza. A estrutura\u00e7\u00e3o do materialismo e do naturalismo s\u00e3o alicer\u00e7ados na suposi\u00e7\u00e3o de que a natureza \u00e9 um sistema fechado de causalidades e regularidades. No p\u00f3lo antag\u00f4nico, encontra-se o motivo liberdade, que enfatiza a autonomia humana, a criatividade e a capacidade de transcender \u00e0s limita\u00e7\u00f5es materiais\/naturais. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Aqui n\u00e3o se est\u00e1 falando de atividade cient\u00edfica, mas da cultura em si. Em grande medida, a cren\u00e7a cultural se sustenta e \u00e9 sustentada pela atividade cient\u00edfica, mas \u00e9 inevitavelmente mais ampla. Neste n\u00edvel nuclear encontramos a fonte de validade da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica ao mesmo tempo em que percebemos seus efeitos mais profundos, posto que essa mesma produ\u00e7\u00e3o estabelece e defende pressupostos culturais. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A verdade \u00e9 que o Ocidente \u2018funciona\u2019 assentado sobre essas duas ideias-for\u00e7a a natureza est\u00e1vel e o \u00edmpeto criativo livre do ser humano. O problema \u00e9 que as duas s\u00e3o mutuamente excludentes. Em algum n\u00edvel ou inst\u00e2ncia um p\u00f3lo acaba por negar o outro, engendrando uma dial\u00e9tica insol\u00favel. Consequentemente, as diversas linhagens te\u00f3ricas que buscam lidar com o tema da origem e do sentido de \u2019tudo o que h\u00e1\u2019 s\u00e3o tentativas de negar um dos polos em favor do outro ou de buscar em v\u00e3o conciliar essa dicotomia insuper\u00e1vel. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Desvendamos assim a din\u00e2mica multidimensional que resulta no fato social da academia negar a hip\u00f3tese Deus. Mas por que essa din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel? Justamente porque os axiomas s\u00e3o pressupostos camuflados e, como tais, n\u00e3o s\u00e3o criticados, n\u00e3o passam pelo crivo da avalia\u00e7\u00e3o ponderada e jamais s\u00e3o postos em perspectiva. Estes axiomas s\u00e3o pressupostos tomados como certos, dados, v\u00e1lidos e, por isso, n\u00e3o s\u00e3o contestados em nenhuma hip\u00f3tese. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A senten\u00e7a final ent\u00e3o \u00e9 a seguinte: for\u00e7as contingentes que se desenvolvem no Ocidente fazem com que o pensamento te\u00f3rico seja incompat\u00edvel com a hip\u00f3tese Deus. A trama se desenvolve no plano dos agentes que operam no campo acad\u00eamico que \u00e9 enredado pelo paradigma imanentista e que, por sua vez, encontra-se imerso \u00e0 cosmovis\u00e3o condicionada aos axiomas inerentes aos motivo base natureza-liberdade. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Tais condi\u00e7\u00f5es explicam a impossibilidade de se admitir a hip\u00f3tese Deus. N\u00e3o porque a proposi\u00e7\u00e3o em si seja absurda ou porque esteja fatalmente esvaziada de razoabilidade, nada disso. O que ocorre \u00e9 uma incompatibilidade entre os pressupostos e as repercuss\u00f5es que decorrem da referida hip\u00f3tese.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\">\n<p class=\"s3\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, terminaremos esta alongada s\u00e9rie com dois artigos, este e o pr\u00f3ximo. Neste, buscaremos amarrar o racioc\u00ednio desenvolvido ao longo dos 20 precedentes, o pr\u00f3ximo tratar\u00e1 da contribui\u00e7\u00e3o de grupos que t\u00eam buscado (re)habilitar a hip\u00f3tese Deus na academia. Nosso racioc\u00ednio se desenvolveu em tr\u00eas dimens\u00f5es: do campo acad\u00eamico, do paradigma cient\u00edfico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":246,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1244],"tags":[],"class_list":["post-225461","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-oleg-abramov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/225461","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/246"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=225461"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/225461\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":225462,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/225461\/revisions\/225462"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=225461"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=225461"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=225461"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}