{"id":224979,"date":"2024-10-15T14:38:02","date_gmt":"2024-10-15T17:38:02","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224979"},"modified":"2024-10-15T14:38:02","modified_gmt":"2024-10-15T17:38:02","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224979","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 19"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Considerando o que foi tratado at\u00e9 aqui, passamos ao seu efeito mais revelador: a evidente incapacidade do campo acad\u00eamico comprometido com o seu paradigma imanentista oferecer \u00e0 sociedade uma resposta \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o de qual seja a raz\u00e3o \u00faltima e o sentido de tudo o que h\u00e1.<\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O soci\u00f3logo acredita que a reflex\u00e3o te\u00f3rica come\u00e7a e termina na sociedade, enquanto o economista acredita na economia, ou o bi\u00f3logo na biologia e assim sucessivamente. A consequ\u00eancia \u00e9 que ningu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m, convence o colega de outra \u00e1rea quanto \u00e0 sua certeza.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Herman Dooyeweerd prop\u00f5e um racioc\u00ednio ao mesmo tempo instigante e revelador: todas as teorias admitidas pelo paradigma imanentista partem da premissa kantiana de que a raz\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 a \u00fanica v\u00e1lida e que n\u00e3o h\u00e1 outra realidade se n\u00e3o a iman\u00eancia material\/natural. \u00a0Ora, se \u00e9 de fato assim, porque cada ci\u00eancia especial apresenta uma explica\u00e7\u00e3o diferente para o sentido da realidade? Se os cientistas s\u00e3o todos igualmente racionais, met\u00f3dicos e se seus pressupostos est\u00e3o corretos, como explicar a Torre da Babel de desentendimento em meio a uma mir\u00edade quase infinita de teorias divergentes, todas dotadas da id\u00eantica pretens\u00e3o de serem definitivas na explica\u00e7\u00e3o dos vetores dos acontecimentos captados pelos nossos sentidos?<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Cada ci\u00eancia especial prioriza o seu campo de reflex\u00e3o trazendo um aspecto espec\u00edfico da realidade imanente ao centro, sobrepondo-o aos outros. \u00a0Por exemplo, para o economista, a economia determina a sociedade; para o soci\u00f3logo, a sociedade determina a pol\u00edtica; para o cientista pol\u00edtico, as institui\u00e7\u00f5es e atores determinam o curso da hist\u00f3ria; para os historiadores, a hist\u00f3ria \u00e9 a for\u00e7a que molda a percep\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos; para os bi\u00f3logos, o organismo humano determina o comportamento; para os psic\u00f3logos, a mente se sobrep\u00f5e \u00e0 biologia na determina\u00e7\u00e3o da identidade; e assim sucessivamente em uma cadeia infinita de discord\u00e2ncias. \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Mais dram\u00e1tico ainda \u00e9 o fato de que dentro de cada ci\u00eancia especial figuram diversas teorias que matizam as possibilidades de caminhos explicativos, afastando-se uma das outras e todas igualmente conspirando pela difus\u00e3o de um sem n\u00famero de percep\u00e7\u00f5es poss\u00edveis da realidade. Por exemplo, na sociologia, os marxistas enfatizam o coletivo na determina\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, j\u00e1 os weberianos acreditam que o indiv\u00edduo determina a sociedade; na historiografia, a vis\u00e3o tradicional reputa os eventos \u00e0s decis\u00f5es de grandes l\u00edderes e estrategistas, j\u00e1 a escola recente da hist\u00f3ria social, atribui maior import\u00e2ncia \u00e0s classes humildes. Se seguirmos detalhando, certamente o leitor ficaria enfadado com esse racioc\u00ednio que n\u00e3o tem fim.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">\u00c9 justamente a falta de uma origem que transcenda os campos de reflex\u00e3o cal\u00e7ados na iman\u00eancia que engendram tamanha disson\u00e2ncia. Ou seja, o fato do motivo base condicionar a reflex\u00e3o te\u00f3rica \u00e0 natureza e a liberdade alicer\u00e7a um paradigma necessariamente imanentista que, por sua vez, n\u00e3o admite explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se afaste das ocorr\u00eancias naturais\/materiais, logo, o campo cient\u00edfico est\u00e1 preso ao dilema de estabelecer qual dentre tantos aspectos da realidade se sobrep\u00f5e aos outros e determina todos os demais. Consequentemente, \u00e9 \u00f3bvio que cada cientista dedicado a compreender um aspecto da realidade \u00e9 levado a vislumbrar que o seu ponto de vista determina ou condiciona os demais, da\u00ed todos acreditam ter a raz\u00e3o, revelando o fato de que ningu\u00e9m consegue escrutinar a verdade.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Dooyeweerd caracteriza diversos &#8220;ismos&#8221;, representando reducionismos epistemol\u00f3gicos que limitam o campo acad\u00eamico \u00e0 tecer uma compreens\u00e3o verdadeiramente v\u00e1lida acerca do ser humano e da pr\u00f3pria realidade. O economicismo, por exemplo, reduz a complexidade da vida social e humana \u00e0 esfera econ\u00f4mica. Segundo Dooyeweerd, essa perspectiva ignora as m\u00faltiplas dimens\u00f5es e express\u00f5es da exist\u00eancia humana, como a cultural, a social e a espiritual, tratando a atividade econ\u00f4mica como a \u00fanica for\u00e7a motriz da sociedade. Essa vis\u00e3o unidimensional n\u00e3o apenas desconsidera a riqueza de experi\u00eancias humanas, mas tamb\u00e9m promove uma compreens\u00e3o estreita das rela\u00e7\u00f5es sociais, muitas vezes levando a uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de aspectos essenciais da vida comunit\u00e1ria.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O historicismo, para ficar em um segundo exemplo, \u00e9 a tend\u00eancia de interpretar a realidade exclusivamente atrav\u00e9s da lente da hist\u00f3ria. Para Dooyeweerd, essa abordagem pode levar \u00e0 cren\u00e7a de que as normas e valores s\u00e3o meramente produtos de contextos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, desconsiderando a possibilidade de verdades universais. O historicismo pode vir a relativizar a moralidade e a \u00e9tica, sugerindo que as a\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as devem ser compreendidas apenas dentro de seus contextos hist\u00f3ricos, resultando em uma falta de crit\u00e9rios objetivos para o julgamento \u00e9tico.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Constatamos, portanto, que o imanentismo opera como um bloqueio mental, que impede grandes intelectuais de enxergarem a obviedade de que o mundo f\u00edsico n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico e que a raz\u00e3o \u00faltima de tudo o que h\u00e1 n\u00e3o pode ser apreendida em nenhuma de suas partes, mas na sua origem absoluta que n\u00e3o se subsume a nada encontrado na iman\u00eancia.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O pr\u00f3prio ato de pensar teoricamente origina um tipo de \u00a0&#8220;ismo&#8221;. O cientificismo \u00e9 uma perspectiva limitadora pois sup\u00f5e que a \u00fanica forma v\u00e1lida de conhecimento \u00e9 aquela produzida pela ci\u00eancia emp\u00edrica. Essa vis\u00e3o tende a deslegitimar outras formas de saber, como a filosofia, a arte, a religi\u00e3o ou a experi\u00eancia subjetiva em geral. Sua tend\u00eancia \u00e9 desconsiderar as dimens\u00f5es n\u00e3o quantific\u00e1veis da vida humana, como os aspectos da exist\u00eancia que n\u00e3o podem ser plenamente capturados por m\u00e9todos cient\u00edficos.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A redu\u00e7\u00e3o da complexidade aos ismos deriva do compromisso com pressupostos axiol\u00f3gicos, simples assim! Conclu\u00edmos, portanto, que um efeito e, ao mesmo tempo, uma \u00a0enorme evid\u00eancia do empobrecimento te\u00f3rico ocasionado pela correla\u00e7\u00e3o motivo-base natureza e liberdade, paradigma imanentista e campo acad\u00eamico eivado de interesses com os seus pressupostos e n\u00e3o com a busca pela verdade \u00e9 o completo desencontro das teorias que pretendem explicar a origem e o sentido da realidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Sendo o campo acad\u00eamico o espa\u00e7o social sancionado para oferecer \u00e0 sociedade respostas para seus dilemas reflexivos, inclusive os existenciais, e se ele n\u00e3o os oferece, duas consequ\u00eancias derivativas s\u00e3o verificadas, dois outros efeitos pr\u00e1ticos s\u00e3o constatados, um pr\u00f3prio da reflex\u00e3o te\u00f3rica e outros na cultura: o relativismo e a p\u00f3s-verdade. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Tais temas ser\u00e3o abordados no artigo seguinte. Por enquanto, basta a constata\u00e7\u00e3o de que os resultados obtidos at\u00e9 aqui no tipo de ci\u00eancia que se desenvolve assentada nos axiomas em voga, a despeito dos avan\u00e7os t\u00e9cnicos, n\u00e3o \u00e9 capaz de enfrentar adequadamente as perguntas existenciais fundamentais: de onde viemos, por que estamos aqui e da\u00ed derivar a pergunta instrumentalmente mais relevante: para onde leva o caminho que estamos percorrendo? \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s5\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerando o que foi tratado at\u00e9 aqui, passamos ao seu efeito mais revelador: a evidente incapacidade do campo acad\u00eamico comprometido com o seu paradigma imanentista oferecer \u00e0 sociedade uma resposta \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o de qual seja a raz\u00e3o \u00faltima e o sentido de tudo o que h\u00e1. 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