{"id":224347,"date":"2024-08-23T20:19:49","date_gmt":"2024-08-23T23:19:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224347"},"modified":"2024-08-23T20:19:49","modified_gmt":"2024-08-23T23:19:49","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224347","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 15"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">A cebola esconde uma camada debaixo da outra. Para revelar seu n\u00facleo, \u00e9 preciso retirar camada por camada, da casca em dire\u00e7\u00e3o ao centro. \u00c9 dessa forma que come\u00e7aremos a demonstrar as raz\u00f5es que explicam a exclus\u00e3o da hip\u00f3tese Deus da academia em nosso tempo, retirando camadas uma a uma at\u00e9 encontrar o n\u00facleo do dilema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os artigos anteriores nos proporcionaram ter uma n\u00edtida vis\u00e3o dessa cebola. Na casca e nas camadas superficiais encontramos o <span class=\"s4\">modus operandi <\/span>do campo acad\u00eamico, com seus agentes e interesses. Nas camadas intermedi\u00e1rias encontramos o paradigma imanentista que oferece \u00e0 academia um ambiente est\u00e1vel de concord\u00e2ncia m\u00ednima para balizar sua atividade. No centro detectamos o motivo base que enla\u00e7a n\u00e3o apenas a atividade intelectual mas a pr\u00f3pria cultura ocidental em sua proje\u00e7\u00e3o de autonomia humana e soberania da natureza, na qual viceja a contradi\u00e7\u00e3o reveladora de sua pr\u00f3pria imprecis\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste e nos pr\u00f3ximos artigos descascaremos a cebola partindo da sua superf\u00edcie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes \u00e9 importante constatar que em nossa sociedade a chancela do conhecimento considerado leg\u00edtimo est\u00e1 concentrada em um campo social delimitado que seleciona os tipos considerados v\u00e1lidos. O campo acad\u00eamico det\u00e9m a autoridade do saber, uma forma de poder que define e delimita o que \u00e9 verdade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como j\u00e1 debatido em artigo anterior, o campo acad\u00eamico n\u00e3o \u00e9 exatamente um espa\u00e7o de coopera\u00e7\u00e3o para o progresso da intelig\u00eancia comprometida com o bem-estar da humanidade. Diversamente, \u00e9 um espa\u00e7o social onde agentes (cientistas, acad\u00eamicos, pesquisadores) produzem conhecimento ao mesmo tempo em que lutam pelo capital simb\u00f3lico, buscando manter e aumentar seu prest\u00edgio, autoridade e, consequentemente, poder. Bourdieu o descreve como sendo um universo relativamente aut\u00f4nomo, no qual o saber obt\u00e9m legitimidade atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o social eivada por lutas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os agentes que operam nos espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento considerado leg\u00edtimo n\u00e3o s\u00e3o neutros e a autoridade \u00e9 exercida por aqueles que t\u00eam interesse de preservar o seu poder. Os indiv\u00edduos que obt\u00eam um lugar de destaque, por raz\u00f5es \u00f3bvias (manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios), t\u00eam interesse em preservar suas posi\u00e7\u00f5es, o que passa necessariamente pela contundente defesa das regras que lhe favorecem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A legitimidade do saber torna-se, portanto, o produto de um imbricado processo de disputas e consensos entre os agentes que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder com a coniv\u00eancia daqueles que topam a domina\u00e7\u00e3o entendendo que eles pr\u00f3prios podem vir a ocupar as mesmas posi\u00e7\u00f5es de destaque.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise mais acurada desse campo revela que suas regras inerentes n\u00e3o se sedimentam t\u00e3o somente na busca pela verdade e, menos ainda, numa pretensa neutralidade cient\u00edfica. Diversamente, os cientistas profissionais s\u00e3o induzidos a instrumentalizar o conhecimento, n\u00e3o necessariamente para fazer a ci\u00eancia avan\u00e7ar, mas para acumular capital e trof\u00e9us, perpetuando um sistema de poder que, por um lado, favorece os agentes dominantes no campo e, por outro, cooperam para preservar o paradigma vigente defendendo-o e reagindo contra eventuais amea\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O campo acad\u00eamico, valoriza seu pr\u00f3prio capital simb\u00f3lico, obtido, por exemplo, com a publica\u00e7\u00e3o de artigos, financiamentos e pr\u00eamios. Os agentes est\u00e3o na maior parte do tempo empenhados em serem reconhecidos e admirados pelos seus pares. Por isso se dedicam a buscar posi\u00e7\u00f5es de destaque em institui\u00e7\u00f5es, confer\u00eancias e tomar posse de c\u00e1tedras. Publica\u00e7\u00f5es em revistas de alto impacto, cita\u00e7\u00f5es em trabalhos de outros pesquisadores e a obten\u00e7\u00e3o de grandes financiamentos tornam-se trof\u00e9us que simbolizam sucesso. Essa din\u00e2mica cria um ambiente competitivo, onde a colabora\u00e7\u00e3o genu\u00edna pelo progresso da intelig\u00eancia e a busca desinteressada pelo conhecimento s\u00e3o mitigados por t\u00e1ticas de autopromo\u00e7\u00e3o e de manuten\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o resulta necessariamente em estrat\u00e9gias individuais generalizadas por um sem n\u00famero de agentes que se conformam aos fins de obter capital e trof\u00e9u e n\u00e3o necessariamente de encontrar e divulgar a verdade. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o do conhecimento faz com que a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o seja movida pelo desejo da descoberta ou pela vontade de contribuir para o progresso da humanidade, mas sim pelo interesse pessoal e de casta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para manter a sua pr\u00f3pria autoridade enquanto indiv\u00edduos ou assegurar as regras do jogo para aqueles que pretendem ascender a posi\u00e7\u00f5es de destaque no campo, os acad\u00eamicos se veem envolvidos inconscientemente em uma trama que os leva a agir sempre, em sentido <span class=\"s4\">lato<\/span>, em favor da manuten\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio do campo e, em sentido <span class=\"s4\">stricto<\/span>, em defesa da validade do paradigma em voga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 assim que compreendemos o motivo pelo qual erguem-se barreiras de entrada que dificultam a introdu\u00e7\u00e3o de novos temas ou hip\u00f3teses que exer\u00e7am amea\u00e7a contra o paradigma vigente. Qualquer \u201cponto fora da curva\u201d, ainda que cr\u00edvel, passa a ser encarado pelos agentes como uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um fato que a ci\u00eancia tem avan\u00e7ado como nunca nos campos tecnol\u00f3gico e de ci\u00eancia aplicada. A competitividade de fato estimula o ser humano a se superar. N\u00e3o se est\u00e1 questionando os avan\u00e7os, mas como tais avan\u00e7os se processam. Pois, se por um lado, a t\u00e9cnica se desenvolve, por outro, os temas existenciais se cauterizam. O progresso n\u00e3o se d\u00e1 por causa das regras do campo, mas apesar delas. Pois ao mesmo tempo em que estimula certos avan\u00e7os, interp\u00f5e barreiras para novos horizontes frut\u00edferos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As regras de publica\u00e7\u00e3o, os crit\u00e9rios de financiamento e os mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o de pares s\u00e3o algumas das armas usadas para excluir ideias que possam amea\u00e7ar o paradigma dominante. Um exemplo not\u00f3rio \u00e9 a resist\u00eancia \u00e0 &#8220;hip\u00f3tese Deus&#8221; ou a qualquer abordagem que sugira a exist\u00eancia de uma dimens\u00e3o transcendente ou espiritual que n\u00e3o pode ser explicada pelas metodologias cient\u00edficas tradicionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A &#8220;hip\u00f3tese Deus&#8221; \u2013 a ideia de conceber uma entidade divina ou transcendente como fator explicativo da origem e sentido da realidade \u2013 \u00e9 marginalizada e frequentemente ridicularizada. Isso porque esta hip\u00f3tese desafia o paradigma materialista\/naturalista e o seu rival sancionado relativista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os mecanismos de exclus\u00e3o operam de diversas formas: a dificuldade de publicar artigos sobre o tema em revistas de prest\u00edgio, a resist\u00eancia em obter financiamento para pesquisas que abordem a quest\u00e3o e a marginaliza\u00e7\u00e3o de acad\u00eamicos que defendem essa perspectiva, s\u00e3o exemplos de opera\u00e7\u00f5es de veto. Esses e outros mecanismos garantem que o paradigma dominante permane\u00e7a inquestionado, preservando a autoridade do saber que confere poder aos agentes estabelecidos em posi\u00e7\u00f5es privilegiadas no campo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imagine as repercuss\u00f5es de sua aceita\u00e7\u00e3o? Se Deus for considerado uma hip\u00f3tese cr\u00edvel, este fato implicaria uma reconfigura\u00e7\u00e3o significativa das bases epistemol\u00f3gicas estabelecidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo artigo vamos aprofundar em camadas intermedi\u00e1rias dessa cebola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cebola esconde uma camada debaixo da outra. 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