{"id":224136,"date":"2024-08-13T20:16:28","date_gmt":"2024-08-13T23:16:28","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224136"},"modified":"2024-08-13T20:16:28","modified_gmt":"2024-08-13T23:16:28","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=224136","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 14"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Contra a ilus\u00e3o kantiana, seguimos Dooyeweerd que supera o fosso da separa\u00e7\u00e3o entre <span class=\"s4\">doxa<\/span> e <span class=\"s4\">episteme<\/span>, pensamento reflexivo e senso comum, informando que existem duas formas leg\u00edtimas de refletir significativamente sobre a realidade.<\/p>\n<p class=\"s5\">Como heran\u00e7a da filosofia grega, foi sacralizada em nossa sociedade a no\u00e7\u00e3o de que o pensamento ordin\u00e1rio, aquele comumente chamado de senso comum, \u00e9 um tipo de pensamento superficial, enquanto a reflex\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 a \u00fanica capaz de captar o significado real dos objetos. Bourdieu \u00e9 um dos autores que faz quest\u00e3o de demonstrar que apoia a valoriza\u00e7\u00e3o de sua ci\u00eancia nesta biparti\u00e7\u00e3o hierarquizada.<\/p>\n<p class=\"s5\">Segundo Dooyeweerd, a realidade \u00e9 experimentada verdadeiramente tanto no senso comum quanto na reflex\u00e3o te\u00f3rica. A distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra na separa\u00e7\u00e3o entre superficialidade <span class=\"s4\">versus<\/span> profundidade, mas na apreens\u00e3o totalizante diversa da apreens\u00e3o fragmentada. A experi\u00eancia ing\u00eanua consiste numa modalidade de experimenta\u00e7\u00e3o da realidade rica em significado. Desconsiderar os detalhes dos objetos n\u00e3o significa que n\u00e3o sejam percebidos em sua real dimens\u00e3o. Este tipo de apreens\u00e3o aborda os objetos em um sentido global que n\u00e3o distingue particularidades, trata-se de uma experimenta\u00e7\u00e3o unificada e abrangente que capta a unidade de cada coisa em sua diversidade de sentido.<\/p>\n<p class=\"s5\">O pensamento te\u00f3rico, por sua vez, se singulariza como esfor\u00e7o de delimitar partes da realidade, buscando captar detalhes em profundidade. A reflex\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 rigorosamente a confronta\u00e7\u00e3o de objetos da realidade com a dimens\u00e3o l\u00f3gica do observador. Essa forma de experimentar o mundo \u00e9 igualmente v\u00e1lida se distinguindo n\u00e3o porque a abstra\u00e7\u00e3o aparta a \u2018verdade das coisas\u2019 n\u00e3o percept\u00edvel numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o, mas simplesmente no fato de pretender produzir teoria acerca dos objetos.<\/p>\n<p class=\"s5\">Na verdade, o pensamento te\u00f3rico \u00e9 baseado na reflex\u00e3o ing\u00eanua. Sendo a segunda pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o da primeira. O ato cient\u00edfico consiste em buscar as ra\u00edzes das coisas devidamente j\u00e1 apreendidas no senso comum, isso n\u00e3o tem nada a ver com hierarquiza\u00e7\u00e3o segundo crit\u00e9rio de verdade, nem diz respeito \u00e0 submiss\u00e3o do segundo ao primeiro. Portanto, o que est\u00e1 na reflex\u00e3o ing\u00eanua necessariamente afeta o ato de produzir teoria.<\/p>\n<p class=\"s5\">Contrariamente a Kant, n\u00e3o temos necessariamente que formar conceitos para experimentar significativamente a realidade. Na atitude ing\u00eanua experienciamos conscientemente os objetos dispostos \u00e0 nossa volta com uma riqueza particular que \u00e9 diversa daquela captada pela atitude te\u00f3rica, esta sim preocupada com conceitos detalhados.<\/p>\n<p class=\"s5\">Outra heran\u00e7a de Kant, complementar \u00e0 anterior, \u00e9 determinar que o sujeito \u00e9 quem atribui significado aos objetos. Na verdade, esta \u00e9 uma flagrante express\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o de seu pensamento pelo pressuposto religioso centrado no bin\u00f4mio, natureza-liberdade, tal como descrito nos artigos anteriores. Kant deposita tamanha f\u00e9 na autonomia humana que condiciona o significado do mundo ao que lhe atribui o observador.<\/p>\n<p class=\"s5\">Sob esta influ\u00eancia, a academia apresenta-se como n\u00facleo produtor do conhecimento em geral, quando, na verdade, sintetiza um tipo espec\u00edfico de conhecimento, o te\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"s5\">Consequentemente, em nossa cultura, centrada no culto \u00e0 raz\u00e3o produzidas por sujeitos aut\u00f4nomos (heran\u00e7a iluminista e particularmente kantiana), sagrou-se a perspectiva de que as pessoas s\u00f3 podem conhecer o mundo atrav\u00e9s das lentes da ci\u00eancia tornando o campo acad\u00eamico socialmente validado e legitimado como espa\u00e7o privilegiado de determina\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a verdade.<\/p>\n<p class=\"s5\">O campo acad\u00eamico passou a possuir em nossa sociedade a prerrogativa de atribuir significados aos objetos, por isso, ocupa um lugar de autoridade. Seu <span class=\"s4\">status<\/span> \u00e9 assegurado pelo fato de atualmente concentrar a interpreta\u00e7\u00e3o leg\u00edtima da realidade.<\/p>\n<p class=\"s5\">Os acad\u00eamicos reproduzem a sua autoridade com base na naturaliza\u00e7\u00e3o da ideia de que existem classes de pensamento e que a reflex\u00e3o sintetizada na academia \u00e9 necessariamente superior \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o das pessoas comuns.<\/p>\n<p class=\"s5\">Para manter a aura de superioridade, a academia usa de suas prerrogativas de poder para naturalizar a ideia de que a atitude te\u00f3rica encontra-se separada e delimitada do pensamento ordin\u00e1rio. Enquanto o primeiro \u00e9 acolhido socialmente como sendo premente sofisticado, profundo e verdadeiro, o segundo \u00e9 caracterizado como \u201cpensamento de segunda\u201d, superficial, raso, enganoso, n\u00e3o devidamente refletido, isento de profundidade, sempre limitado e parcial.<\/p>\n<p class=\"s5\">Baseado na ilus\u00e3o kantiana, a academia vende e a sociedade compra como fato que ela \u00e9 a detentora do poder explicativo da realidade, de maneira que fora do campo acad\u00eamico a apreens\u00e3o \u00e9 inexoravelmente duvidosa, incompleta, distorcida e\/ou superficial. \u00c9 necess\u00e1rio o selo dos intelectuais sancionados para que tal ou qual conhecimento seja considerado leg\u00edtimo.<\/p>\n<p class=\"s5\">Como se as verdades cient\u00edficas n\u00e3o fossem sempre e necessariamente parciais, controvertidas e transit\u00f3rias, produzidas em meio rela\u00e7\u00f5es de poder e hierarquias de domina\u00e7\u00e3o que afetam necessariamente os crit\u00e9rios de validade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contra a ilus\u00e3o kantiana, seguimos Dooyeweerd que supera o fosso da separa\u00e7\u00e3o entre doxa e episteme, pensamento reflexivo e senso comum, informando que existem duas formas leg\u00edtimas de refletir significativamente sobre a realidade. 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