{"id":223888,"date":"2024-07-29T18:40:34","date_gmt":"2024-07-29T21:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223888"},"modified":"2024-07-29T18:40:34","modified_gmt":"2024-07-29T21:40:34","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223888","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 13"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Como visto no artigo anterior, Kant acredita na objetividade do pensamento te\u00f3rico. Este fato carrega um preocupante pressuposto: n\u00e3o existem contamina\u00e7\u00f5es que concorram com a racionalidade pura no ato de formar teorias.<\/p>\n<p class=\"s4\">Kant solidifica a ideia de que existe um conhecimento objetivo que pode ser alcan\u00e7ado por meio do pensamento te\u00f3rico. At\u00e9 a\u00ed tudo bem. Por\u00e9m essa cren\u00e7a engendrou dois pressupostos que influenciaram o pensamento Ocidental e que figuram no alicerce do paradigma cient\u00edfico em voga. A primeira \u00e9 a f\u00e9 na transcend\u00eancia da raz\u00e3o, a segunda \u00e9 a f\u00e9 na autonomia ou neutralidade do pensamento te\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"s4\">O legado kantiano lan\u00e7a a racionalidade para um plano transcendental, ou seja, para fora da mente do sujeito pensante. Perceba que o paradigma ignora os agentes que sintetizam teorias, se concentra na racionalidade em si, acreditando que a raz\u00e3o est\u00e1 localizada num ponto externo ao sujeito.<\/p>\n<p class=\"s4\">Estando fora, a raz\u00e3o est\u00e1 al\u00e9m e acima do indiv\u00edduo, imune ao que o sujeito \u00e9 ou \u00e0quilo que o influencia. Essa cren\u00e7a coloca a raz\u00e3o como uma esp\u00e9cie de entidade aut\u00f4noma e superior, quase um deus.<\/p>\n<p class=\"s4\">Esse imperativo revela-se como uma esp\u00e9cie de f\u00e9 religiosa quando observamos o dilema b\u00e1sico de legitimidade ao qual est\u00e1 embasado. Pois o que leva o paradigma a afirmar que o pensamento te\u00f3rico \u00e9 verdadeiramente imune \u00e0 contamina\u00e7\u00f5es e um conhecimento verdadeiramente autoritativo \u00e9 o fato de ser racional. Ou seja, a racionalidade \u00e9 o selo de legitimidade da pr\u00f3pria racionalidade. O legado kantiano acredita que \u00e9 poss\u00edvel haver conhecimento objetivo em fun\u00e7\u00e3o do pensamento te\u00f3rico e a base dessa cren\u00e7a \u00e9 a pr\u00f3pria raz\u00e3o humana. Como se a raz\u00e3o pudesse por si mesma conferir legitimidade ao que a raz\u00e3o cria.<\/p>\n<p class=\"s4\">Por outro lado, imagina-se que a reflex\u00e3o esteja enredada por um campo de for\u00e7a, fornecido pela metodologia e pelo comprometimento com a busca pela verdade. O paradigma cultiva a f\u00e9 de que o pensamento met\u00f3dico-racional \u00e9 isento de influ\u00eancias externas. Sendo aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cren\u00e7as que se formam apartadas da raz\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"s4\">Para tanto, o paradigma simplesmente ignora a exist\u00eancia de uma cosmovis\u00e3o historicamente determinada que envolve a ele pr\u00f3prio, o campo acad\u00eamico onde se produzem teorias e os pensadores individualmente, como se o pensamento n\u00e3o refletisse muito da cultura na qual encontra-se inserida.<\/p>\n<p class=\"s4\">N\u00e3o h\u00e1 que se falar de pensamento te\u00f3rico neutro, pois ele \u00e9 produto da sociedade, sintetizada em campo de lutas e hierarquias de poder, cada indiv\u00edduo que produz teoria observa a realidade a partir do contexto que o circunscreve e afeta.<\/p>\n<p class=\"s4\">Nisto Bourdieu se encontra com Dooyeweerd, por\u00e9m o primeiro aborda o problema a partir da sociedade como um condicionamento que atua sobre os demais condicionantes, enquanto \u00a0Dooyeweerd acredita em uma influ\u00eancia mais profunda que o faz design\u00e1-la como \u201creligiosa\u201d.<\/p>\n<p class=\"s4\">Como visto em artigo anterior, para Dooyeweerd religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que confiss\u00e3o religiosa, mas um pressuposto, uma f\u00e9 arraigada que dirige o indiv\u00edduo em todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, cada indiv\u00edduo conduz-se segundo aquilo em que concentra a sua cren\u00e7a. Pode ser numa ideia, coisa ou pessoa.<\/p>\n<p class=\"s4\">Se o que est\u00e1 por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 um conjunto de cren\u00e7as, como a pr\u00f3pria transcendentalidade da raz\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o estamos falando de outra coisa sen\u00e3o religi\u00e3o. E a religi\u00e3o traz necessariamente uma ideia de absoluto. Portanto, quando se nega que Deus \u00e9 o Criador, outro criador deve tomar o seu lugar.<\/p>\n<p class=\"s4\">O ser pensante sintetiza uma teoria que atribui a origem e o sentido \u00e0quilo que ocupa o lugar desse criador. Se n\u00e3o \u00e9 o Deus monote\u00edsta outro Deus precisa ocupar o seu lugar. Pode ser a natureza em si mesma, uma outra divindade, um princ\u00edpio te\u00f3rico etc.<\/p>\n<p class=\"s4\">Se a origem n\u00e3o est\u00e1 na transcend\u00eancia \u00e9 inexor\u00e1vel que ela seja atribu\u00edda a algo da iman\u00eancia, seja ideia, coisa, pessoa etc. Algo do plano imanente toma o lugar do transcendente. Este racioc\u00ednio traz consequ\u00eancias desastrosas como se ver\u00e1 mais adiante nesta s\u00e9rie de artigos.<\/p>\n<p class=\"s4\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como visto no artigo anterior, Kant acredita na objetividade do pensamento te\u00f3rico. Este fato carrega um preocupante pressuposto: n\u00e3o existem contamina\u00e7\u00f5es que concorram com a racionalidade pura no ato de formar teorias. Kant solidifica a ideia de que existe um conhecimento objetivo que pode ser alcan\u00e7ado por meio do pensamento te\u00f3rico. At\u00e9 a\u00ed tudo bem. 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