{"id":223812,"date":"2024-07-23T17:31:44","date_gmt":"2024-07-23T20:31:44","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223812"},"modified":"2024-07-23T17:31:44","modified_gmt":"2024-07-23T20:31:44","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223812","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 12"},"content":{"rendered":"<p>Kant foi um pensador alem\u00e3o do s\u00e9culo XVIII cuja obra possui elevada estatura tanto para a filosofia quanto para a ci\u00eancia e suas reflex\u00f5es encontram-se na base da edifica\u00e7\u00e3o do paradigma cient\u00edfico que enreda o campo acad\u00eamico em nosso tempo. Neste artigo destacarei criticamente duas de suas ideias que cooperaram para o consenso que hoje se verifica: a centralidade da raz\u00e3o e o mito da neutralidade.<\/p>\n<p>Seu ponto de partida foi buscar conciliar as duas principais correntes filos\u00f3ficas que vinham se desenvolvendo na modernidade, o racionalismo e o empirismo. Suas duas obras-primas, \u2018Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u2019 e \u2018Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica\u2019 abordam respectivamente, na primeira, as quest\u00f5es fundamentais sobre a reflex\u00e3o humana e a estrutura da realidade, investigando os limites e as possibilidades do conhecimento humano em si; enquanto na segunda explora a esfera dos valores e da liberdade, baseando a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica na capacidade racional de formular leis morais.<\/p>\n<p>Percebemos que o autor encontra-se plenamente enquadrado no motivo-base natureza e liberdade e como \u00e9 comum a todos autores circunscritos por dualismos, embora reconhe\u00e7a ambos imperativos e busque (em v\u00e3o como os demais) reconcili\u00e1-los, inclina-se para um dos lados. No seu caso, a liberdade se sobrep\u00f5e \u00e0 natureza, visto que, em seu julgamento, a vontade humana \u00e9 aut\u00f4noma e capaz de agir conforme princ\u00edpios racionais e universais, independentemente das leis naturais.<\/p>\n<p>Kant prop\u00f5e que a mente humana \u00e9 uma inst\u00e2ncia que estrutura a experi\u00eancia atrav\u00e9s de categorias a priori, e que tais fornecem as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a percep\u00e7\u00e3o da realidade. Essa perspectiva influenciou o paradigma cient\u00edfico e filos\u00f3fico contempor\u00e2neo cristalizando a ideia de que o conhecimento humano n\u00e3o \u00e9 mera reflex\u00e3o passiva da realidade externa \u00e0 mente, mas que o ato de pensar \u00e9 moldado pelas estruturas da pr\u00f3pria mente.<\/p>\n<p>A epistemologia que resulta desse princ\u00edpio \u00e9 centrada no que Kant chama de \u2018revolu\u00e7\u00e3o copernicana\u2019, que consiste em colocar o sujeito e n\u00e3o o objeto no centro do ato de conhecer. Ele argumenta que os conceitos n\u00e3o s\u00e3o derivados da experi\u00eancia, ao contr\u00e1rio, eles s\u00e3o determinados antes a fim de proporcionar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que a pr\u00f3pria experi\u00eancia seja poss\u00edvel. Assim, nosso conhecimento do mundo \u00e9 sempre uma constru\u00e7\u00e3o que resulta da intera\u00e7\u00e3o entre nossa mente e os dados sensoriais. Essa estrutura mental a priori implica crer que jamais podemos conhecer as &#8220;coisas em si&#8221;, mas apenas as coisas como elas aparecem para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Para fazer tal afirma\u00e7\u00e3o, Kant estabeleceu uma distin\u00e7\u00e3o fundamental entre o mundo dos fen\u00f4menos, que \u00e9 aquilo que podemos experimentar e conhecer, e o mundo dos n\u00famenos, ou a realidade em si, que est\u00e1 al\u00e9m de nossa cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Dooyeweerd \u00e0 filosofia de Kant come\u00e7a por a\u00ed: o dualismo. Ele argumenta que a divis\u00e3o entre o mundo sens\u00edvel e o mundo intelig\u00edvel cria uma dicotomia insustent\u00e1vel. E representa uma fuga perante a incapacidade de conciliar natureza e liberdade, uma separa\u00e7\u00e3o artificial que n\u00e3o reconhece a integridade da cria\u00e7\u00e3o. O projeto kantiano revela assim sua falha ao tentar fornecer uma vis\u00e3o coerente e unificada da realidade.<\/p>\n<p>A segunda grande influ\u00eancia de Kant para a modelagem do paradigma cient\u00edfico em voga diz respeito \u00e0 sua defesa da autonomia da raz\u00e3o humana. Dooyeweerd chama isso de \u2018mito da neutralidade cient\u00edfica\u2019. Como percebemos, Kant sustenta que a raz\u00e3o \u00e9 a fonte \u00faltima do conhecimento e da moralidade. Para isso ele precisa dar um salto transcendental e colocar a raz\u00e3o acima e al\u00e9m da realidade, postulando que a raz\u00e3o paira sobre o limitar do mundo dos fen\u00f4menos, o que \u00e9 tido como condi\u00e7\u00e3o para que a ci\u00eancia possa alcan\u00e7ar o conhecimento objetivo.<\/p>\n<p>Essa \u00eanfase na autonomia da raz\u00e3o cria a ilus\u00e3o de que a ci\u00eancia pode operar de maneira completamente neutra e livre de influ\u00eancias externas.<\/p>\n<p>Dooyeweerd, por sua vez, argumenta que essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 ilus\u00f3ria e problem\u00e1tica. Ao colocar a raz\u00e3o acima e al\u00e9m da realidade, Kant desconsidera que a pr\u00f3pria raz\u00e3o consiste em um dado da realidade. A l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o transcendental, mas um dos modos de experimenta\u00e7\u00e3o dispostos na iman\u00eancia. Como no mundo tudo influencia tudo, ela \u00e9 tamb\u00e9m condicionada por pressupostos outros. Consequentemente, a cren\u00e7a na neutralidade cient\u00edfica ignora a depend\u00eancia fundamental da raz\u00e3o humana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ordens normativas que sofrem influ\u00eancia, por exemplo, das perspectivas culturais e hist\u00f3ricas loco temporais.<\/p>\n<p>Portanto, ao colocar a raz\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o acima e al\u00e9m da realidade concreta, Kant engendra uma mistifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se sustenta mas que se tornou atualmente um princ\u00edpio inquestion\u00e1vel inerente ao campo acad\u00eamico: a objetividade neutra da ci\u00eancia. Uma ilus\u00e3o que est\u00e1 enraizada no paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2neo, adotada acriticamente no campo cient\u00edfico como um fato inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dooyeweerd, por sua vez, pondera que a ci\u00eancia n\u00e3o pode ser completamente objetiva e isenta de pressupostos filos\u00f3ficos e religiosos. Ele sustenta que toda atividade cient\u00edfica est\u00e1 inevitavelmente enraizada em uma vis\u00e3o de mundo subjacente que influencia a forma como os fen\u00f4menos s\u00e3o apreendidos, interpretados e compreendidos.<\/p>\n<p>Tendo em vista tudo o que foi debatido at\u00e9 aqui, e tomando consci\u00eancia dessas defici\u00eancias oriundas de Kant, no pr\u00f3ximo artigo podemos come\u00e7ar a amarrar todas as pontas para compreender por que a hip\u00f3tese Deus foi exclu\u00edda da academia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kant foi um pensador alem\u00e3o do s\u00e9culo XVIII cuja obra possui elevada estatura tanto para a filosofia quanto para a ci\u00eancia e suas reflex\u00f5es encontram-se na base da edifica\u00e7\u00e3o do paradigma cient\u00edfico que enreda o campo acad\u00eamico em nosso tempo. 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