{"id":223648,"date":"2024-07-12T10:22:54","date_gmt":"2024-07-12T13:22:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223648"},"modified":"2024-07-12T10:22:54","modified_gmt":"2024-07-12T13:22:54","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223648","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 11"},"content":{"rendered":"<p>Na infraestrutura do paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2neo, existe um pressuposto fundamental que opera silenciosamente, moldando suas distin\u00e7\u00f5es loco-temporais e caracter\u00edsticas singulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este pressuposto \u00e9 dicot\u00f4mico, baseado em duas ideias-for\u00e7a poderosas e ao mesmo tempo contradit\u00f3rias: natureza e liberdade. Esses dois<span class=\"s4\"> a prioris<\/span> funcionam como pilares impl\u00edcitos que sustentam em n\u00edvel mais profundo paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2nea e, portanto, enla\u00e7a o campo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um fundamento que n\u00e3o alicer\u00e7a apenas o conhecimento cient\u00edfico mas o pr\u00f3prio modo de pensar. Est\u00e1 arraigado na cultura e capilarizado em milhares de pressuposi\u00e7\u00f5es que orientam n\u00e3o apenas a dimens\u00e3o intelectual mas valores, h\u00e1bitos, pr\u00e1ticas, em suma, a cultura ou, sendo ainda mais radical, o pr\u00f3prio pensamento humano t\u00edpico de nossa era.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos atendo, por\u00e9m, aos seus efeitos no campo cient\u00edfico \u00e9 premente constatar que, como det\u00e9m natureza impl\u00edcita, infraestrutural e profunda, os pressupostos s\u00e3o raramente detectados e, consequentemente, jamais s\u00e3o submetidos ao crivo cr\u00edtico. Em vez disso, s\u00e3o simplesmente absorvidos como realidades dadas e postas, aceitas sem a devida reflex\u00e3o sobre suas implica\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es internas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E tal blindagem se deve a outro pressuposto, que se tornou o valor m\u00e1ximo da atividade cient\u00edfica: \u00a0o mantra da neutralidade do pensamento te\u00f3rico. Mas este aspecto trataremos no pr\u00f3ximo artigo. Por enquanto, seguimos desenvolvendo sobre os dois pilares da cultura ocidental contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ideia de &#8220;natureza&#8221; refere-se a um universo ordenado, regido por leis causais e empiricamente observ\u00e1veis. A ci\u00eancia moderna, desde os tempos de Isaac Newton, tem trabalhado sob o pressuposto de que o mundo natural \u00e9 compreens\u00edvel, pode ser explorado pelo intelecto humano e conhecido por meio da investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. Este enfoque na natureza como um sistema fechado e mecanicista, governado por leis imut\u00e1veis, \u00e9 vista como um dado objetivo, um cen\u00e1rio est\u00e1vel que pode ser desvendado atrav\u00e9s do m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ideia de &#8220;liberdade&#8221;, por sua vez, refere-se \u00e0 autonomia do sujeito racional, \u00e0 capacidade dos seres humanos de exercerem sua vontade e de fazerem escolhas morais e intelectuais independentes d e qualquer primado ou tabu. Esta concep\u00e7\u00e3o de liberdade \u00e9 profundamente enraizada no pensamento iluminista, que relaciona a dignidade humana \u00e0 capacidade de auto-legisla\u00e7\u00e3o e \u00e0 busca do conhecimento e do progresso sem restri\u00e7\u00f5es externas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo considerando os avan\u00e7os de n\u00edvel t\u00e9cnico-cient\u00edfico oriundos do motivo base natureza e liberdade, o mesmo tem fracassado flagrantemente na sua ambi\u00e7\u00e3o de dar respostas satisfat\u00f3rias para as quest\u00f5es mais profundas da realidade, como a origem e sentido de tudo o que h\u00e1. Fracasso que se expressa n\u00e3o na falta de respostas (respostas no plural) mas exatamente no incont\u00e1vel n\u00famero de alternativas, mutuamente excludentes e todas igualmente inconclusivas.<\/p>\n<p>O motivo do insucesso \u00e9 encontrado em dois motivos: (1) no princ\u00edpio imanentista que desconsidera raz\u00f5es transcendentes; (2) na contradi\u00e7\u00e3o inerente entre os pr\u00f3prios motivos base.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Focando na segunda raz\u00e3o, percebe-se que essas duas ideias for\u00e7a &#8211; natureza e liberdade &#8211; s\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, contradit\u00f3rias. O limiar da incongru\u00eancia est\u00e1 no paradoxo de tomar a natureza como um fato objetivo e simultaneamente aceitar a liberdade humana como uma condi\u00e7\u00e3o inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de natureza como um sistema determinista e fechado entra em conflito frontal com o ideal de autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o humanas. Se o universo \u00e9 completamente governado por leis causais, onde se localiza a liberdade humana? Se tudo pode ser explicado em termos de processos naturais e determin\u00edsticos, o que resta do livre-arb\u00edtrio? Na verdade, o primado da natureza bloqueia a capacidade humana aut\u00f4noma, impedindo-a de transcender os imperativos naturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exemplificando com o sinal trocado: nos debates sobre \u00e9tica na ci\u00eancia, a autonomia do pesquisador se encontra enredada pela necessidade de respeitar a dignidade humana. Neste caso, os valores exercem poder de veto sobre os avan\u00e7os cient\u00edficos sempre que tais parecerem sugerir explica\u00e7\u00f5es que se choque com os valores culturalmente estabelecidos. Ora, a liberdade, neste caso, se permite minar a pr\u00f3pria ideia de progresso cient\u00edfico, caso este n\u00e3o se adeque a valores. Sendo assim, o imperativo da natureza \u00e9 bloqueado pelo imperativo da liberdade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Afinal onde est\u00e1 o princ\u00edpio? Na natureza ou na liberdade? Pergunta que remete a outra: como o paradigma cient\u00edfico segue de p\u00e9 sabendo que assenta-se sobre uma contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se furtando a criticar ou examinar essas tens\u00f5es, o paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2neo que circunscreve o campo cient\u00edfico absorve esses <span class=\"s4\">a prioris<\/span> como realidades dadas, ora enfatizando um, ora outro, ou mesmo tentando infrutiferamente conciliar um com o outro. Na verdade, a contradi\u00e7\u00e3o aponta para uma \u00fanica conclus\u00e3o cr\u00edvel: o princ\u00edpio n\u00e3o est\u00e1 nem na natureza nem na liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas por que o campo acad\u00eamico mant\u00e9m sua legitimidade mesmo n\u00e3o realizando aquilo que se prop\u00f5e? Porque ele se assenta em um dogma igualmente irrefletido e jamais questionado: a suposta neutralidade do pensamento cient\u00edfico. Assunto do pr\u00f3ximo artigo, quando falaremos de um dos principais representantes do paradigma em voga: Kant.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o percam!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na infraestrutura do paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2neo, existe um pressuposto fundamental que opera silenciosamente, moldando suas distin\u00e7\u00f5es loco-temporais e caracter\u00edsticas singulares. &nbsp; Este pressuposto \u00e9 dicot\u00f4mico, baseado em duas ideias-for\u00e7a poderosas e ao mesmo tempo contradit\u00f3rias: natureza e liberdade. 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