{"id":223646,"date":"2024-07-12T10:22:00","date_gmt":"2024-07-12T13:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223646"},"modified":"2024-07-12T10:23:14","modified_gmt":"2024-07-12T13:23:14","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223646","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 10"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Agora que j\u00e1 estabelecemos as bases te\u00f3ricas (veja os artigos anteriores), podemos come\u00e7ar a penetrar no problema que guia a presente s\u00e9rie.<\/p>\n<p class=\"s4\">A preponder\u00e2ncia do campo acad\u00eamico na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento leg\u00edtimo \u00e9 um fato social. Da mesma maneira, o veto da \u2018hip\u00f3tese Deus\u2019 como alternativa explicativa da origem e sentido da realidade \u00e9 outro fato social.<\/p>\n<p class=\"s4\">N\u00e3o existe \u00f3bice sen\u00e3o convencional para que a ideia de Deus n\u00e3o seja seriamente aceita como uma entre outras possibilidades em debate no interior do espa\u00e7o leg\u00edtimo de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Veja que n\u00e3o se faz refer\u00eancia \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese, mas sua submiss\u00e3o consequente ao debate. Como conting\u00eancias, o campo cient\u00edfico e o veto \u00e0 hip\u00f3tese Deus, ambos devem ser investigados como tais, ou seja, como fatos sociais.<\/p>\n<p class=\"s4\">Para encontrar as raz\u00f5es dos fatos sociais n\u00e3o podemos nos ater t\u00e3o somente \u00e0s apar\u00eancias nem nos deter na superficialidade, temos que colocar em quest\u00e3o absolutamente tudo, especialmente suas pr\u00f3prias justificativas.2<\/p>\n<p class=\"s4\">Esta \u00e9 a atitude verdadeiramente cr\u00edtica: aquela capaz de romper com a <span class=\"s5\">ilusio<\/span>, conduzindo a investiga\u00e7\u00e3o que pretende ser considerada cient\u00edfica no sentido das raz\u00f5es ocultas. N\u00e3o h\u00e1 embara\u00e7o algum em problematizar o fato de que o campo cient\u00edfico est\u00e1 longe de ser isento e de que a \u2018hip\u00f3tese Deus\u2019 hoje sofre impedimentos concretos nada cient\u00edficos ou racionais.<\/p>\n<p class=\"s4\">Bourdieu est\u00e1 correto ao afirmar peremptoriamente que os seres humanos tendem a naturalizar aquilo que tem origem na din\u00e2mica social. Ou seja, de acreditar que os fatos sociais s\u00e3o fatos da natureza e, portanto, pr\u00e9vios e imut\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"s4\">Ele identifica e elenca extensivamente ao longo de sua obra acontecimentos que s\u00e3o tidos pela sociedade como sendo realidades naturais mas que s\u00e3o, na verdade, resultantes de processos complexos de socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"s4\">A reflex\u00e3o cr\u00edtica deve explicar livre de preconceitos, investigar para ent\u00e3o determinar as raz\u00f5es dos fen\u00f4menos, ou seja, analisar os pormenores para ent\u00e3o demonstrar os fundamentos daquilo que se tende a acreditar ser \u2018um dado inviol\u00e1vel da natureza\u2019.<\/p>\n<p class=\"s4\">Isso n\u00e3o quer dizer que tudo \u00e9 social. Neste ponto nos afastamos brutalmente de Bourdieu. Assim como grandes sumidades de outras \u00e1reas do saber, o franc\u00eas incorre no problema comum do \u2018ismo\u2019, ou seja, a tend\u00eancia de reduzir \u2018o todo\u2019 pela \u2018parte\u2019 ou a atribuir como causa uma consequ\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"s4\">Este aspecto \u00e9 revelador quanto \u00e0 pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia moderna: como seu paradigma materialista\/naturalista ou o contraponto relativista n\u00e3o encontram a raz\u00e3o \u00faltima de tudo o que h\u00e1, os soci\u00f3logos acreditam que a reflex\u00e3o te\u00f3rica come\u00e7a e termina na sociedade, enquanto o economista acredita na economia, ou o bi\u00f3logo na biologia e assim sucessivamente. Este ponto ficar\u00e1 mais claro no decorrer da exposi\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3ximos artigos da s\u00e9rie.<\/p>\n<p class=\"s4\">Retomando o aspecto central deste artigo: \u00a0no caso da pr\u00e1tica cient\u00edfica, devemos consider\u00e1-la um fato social. Isso porque n\u00e3o \u00e9 um dado pr\u00e9vio e pertencente a qualquer outra natureza sen\u00e3o \u00e0 conting\u00eancia humana. Ela possui uma geografia e uma hist\u00f3ria, pode ser localizada no espa\u00e7o e determinada no tempo. Sendo assim, existe em certos contextos e inexiste em outros. Vige na nossa sociedade e n\u00e3o em todas as sociedades. \u00c9 como fato social, com tempo e espa\u00e7o definidos, que pode e deve ser submetida \u00e0 cr\u00edtica a fim de buscar e encontrar seu delineamento.<\/p>\n<p class=\"s4\">N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a nossa sociedade celebra o campo cient\u00edfico como sendo neutro de contamina\u00e7\u00f5es n\u00e3o cient\u00edficas e de que a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 comprometida t\u00e3o somente com a busca pela verdade. Naturalizar tais \u2018princ\u00edpios\u2019 \u00e9 vital para a obten\u00e7\u00e3o da legitimidade do campo e, consequentemente, de seus agentes dominantes.<\/p>\n<p class=\"s4\">Observando a din\u00e2mica interna aos campos, os seus participantes agem de maneira unificada para assegurar a legitimidade do campo, enquanto os dominantes t\u00eam a necessidade de naturalizar os processos que mant\u00e9m a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"s4\">Os agentes n\u00e3o reproduzem tal din\u00e2mica conscientemente, mas atrav\u00e9s de um processo de ajustes de prefer\u00eancias e a\u00e7\u00f5es, no qual cada qual exerce suas prerrogativas para alcan\u00e7ar o pr\u00f3prio interesse de legitimar seu pr\u00f3prio espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o e de conservar sua destacada posi\u00e7\u00e3o. Dessa forma, agentes individuais se veem enla\u00e7ados numa trama coletiva e cooperam inconscientemente para a manuten\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio do campo frente ao resto da sociedade e cristalizam os processos internos de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"s4\">Consequentemente, compreender os processos aparentemente naturais como fatos sociais \u00e9 determinante para desmascarar narrativas e expor din\u00e2micas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"s4\">O primeiro passo para desvendar o mist\u00e9rio das ra\u00edzes ocultas do fazer ci\u00eancia consiste em delimitar aquilo que se pode chamar campo cient\u00edfico o que envolve circunscrever o <span class=\"s5\">habitus<\/span> incrustado nos agentes que dele participam.<\/p>\n<p class=\"s4\">Remontando \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o grega entre <span class=\"s5\">doxa<\/span> e <span class=\"s5\">episteme<\/span>, a academia apresenta-se como um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento isento da contamina\u00e7\u00e3o do senso comum, garantido pela austeridade met\u00f3dica e sustentado pela reflex\u00e3o rigorosamente racional. Nada mais distante da verdade!<\/p>\n<p class=\"s4\">A academia constitui um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o, de domina\u00e7\u00e3o e lutas tal como ocorre em qualquer outro campo. A produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 a s\u00edntese da busca pelo conhecimento associado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que ocorre tal busca. Ela envolve um <span class=\"s5\">habitus<\/span> que se assenta sobre a <span class=\"s5\">illusio<\/span> de se desconsiderar que o pensamento te\u00f3rico tal como qualquer manifesta\u00e7\u00e3o mental s\u00f3 pode ser devidamente apreciado segundo determinados pressupostos axiom\u00e1ticos estabelecidos pelo paradigma e cujas ra\u00edzes se encontram em motivos religiosos ainda mais profundos.<\/p>\n<p class=\"s4\">Para compreender este ponto, devemos destrinchar o pensamento de Kant que se baseia no motivo base natureza e liberdade e lan\u00e7a uma ideia que cativou a academia de que o pensamento te\u00f3rico \u00e9 o pensamento em si engendrando o mito da neutralidade da reflex\u00e3o cient\u00edfico como demonstraremos nos pr\u00f3ximos artigos.<\/p>\n<p class=\"s4\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que j\u00e1 estabelecemos as bases te\u00f3ricas (veja os artigos anteriores), podemos come\u00e7ar a penetrar no problema que guia a presente s\u00e9rie. 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