{"id":223473,"date":"2024-06-29T12:52:00","date_gmt":"2024-06-29T15:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223473"},"modified":"2024-06-29T12:52:00","modified_gmt":"2024-06-29T15:52:00","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-09","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223473","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 09"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\" style=\"text-align: left;\">\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Dando sequ\u00eancia \u00e0 nossa investiga\u00e7\u00e3o acerca das raz\u00f5es fundamentais que explicam o veto interposto na academia para a \u2018hip\u00f3tese Deus\u2019 entre as poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es da origem e sentido da realidade, continuamos a esmiu\u00e7ar o pensamento de Herman Dooyeweerd.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Para o jusfil\u00f3sofo holand\u00eas, um &#8220;motivo-base religioso&#8221; \u00e9 uma for\u00e7a motriz, um princ\u00edpio fundamental que subjaz e orienta todas as atividades e modos de pensamento de uma sociedade. Ele \u00e9 a raiz da cosmovis\u00e3o que molda a cultura, a ci\u00eancia, a arte, a pol\u00edtica e todos os aspectos da vida humana. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Quando analisou a hist\u00f3ria do Ocidente, Dooyeweerd identificou quatro motivos-base que moldaram a nossa civiliza\u00e7\u00e3o: forma e mat\u00e9ria; cria\u00e7\u00e3o, queda e reden\u00e7\u00e3o; natureza e gra\u00e7a; natureza e liberdade. Vamos analisar as tr\u00eas dominantes:<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O motivo-base &#8220;forma e mat\u00e9ria&#8221; emerge da filosofia grega como uma dualidade fundamental para interpretar a realidade. Por uma lado, tem-se a Forma (Eidos), que, segundo a filosofia de Plat\u00e3o, refere-se \u00e0s ideias perfeitas e imut\u00e1veis que existem em um reino transcendental. Essas formas s\u00e3o os verdadeiros arqu\u00e9tipos das coisas no mundo material e conferem ordem e inteligibilidade ao cosmos. Para Arist\u00f3teles, a forma \u00e9 o princ\u00edpio determinante que d\u00e1 ess\u00eancia e estrutura a uma subst\u00e2ncia particular.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Em contraste, a &#8220;mat\u00e9ria&#8221; \u00e9 vista como algo indeterminado e ca\u00f3tico que recebe forma. Na vis\u00e3o plat\u00f4nica, a mat\u00e9ria \u00e9 imperfeita e mut\u00e1vel, uma c\u00f3pia imperfeita das formas ideais. Para Arist\u00f3teles, a mat\u00e9ria \u00e9 o potencial que, ao receber a forma, se torna uma subst\u00e2ncia concreta e particular. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Para Dooyeweerd, tal motivo-base representa uma tentativa de resolver a tens\u00e3o entre ordem e caos, estabilidade e mudan\u00e7a, racionalidade e irracionalidade. Por\u00e9m, n\u00e3o alcan\u00e7a sua pretens\u00e3o, ao contr\u00e1rio, produz uma vis\u00e3o fragmentada da realidade. Esta dualidade \u00e9 insuficiente para explicar a totalidade da exist\u00eancia, falhas do ao n\u00e3o capturar sua complexidade e a interconex\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Dominante durante a Idade M\u00e9dia, o motivo-base &#8220;natureza e gra\u00e7a&#8221;, por sua vez, \u00e9 a tentativa de s\u00edntese entre o pensamento grego e a teologia crist\u00e3 . Natureza refere-se ao mundo f\u00edsico e material, e tudo aquilo que pode ser entendido e explicado pela raz\u00e3o humana. \u00c9 o dom\u00ednio da ci\u00eancia, da filosofia natural e das atividades pr\u00e1ticas que lidam com a realidade emp\u00edrica. Na vis\u00e3o medieval, a &#8220;natureza&#8221; \u00e9 a esfera da exist\u00eancia criada por Deus, mas que funciona segundo suas pr\u00f3prias leis e princ\u00edpios, que podem ser investigados e compreendidos pela raz\u00e3o humana.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Gra\u00e7a refere-se ao sobrenatural, a ordem divina e espiritual que transcende a realidade material. \u00c9 o dom\u00ednio da revela\u00e7\u00e3o divina, da salva\u00e7\u00e3o, e da interven\u00e7\u00e3o direta de Deus. Ela \u00e9 necess\u00e1ria para elevar a natureza \u00e0 sua plenitude, suprindo as defici\u00eancias da raz\u00e3o humana e da ordem criada. \u00c9 atrav\u00e9s da gra\u00e7a que os seres humanos podem alcan\u00e7ar a verdadeira comunh\u00e3o com Deus.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Essa s\u00edntese, longe de harmonizar filosofia grega e f\u00e9 crist\u00e3, apenas criou uma nova tens\u00e3o entre duas esferas distintas, tal como fizera o motivo grego. Introduzir apenas outro \u00a0dualismo que fragmenta a realidade em duas esferas separadas e, muitas vezes, conflitantes, a Terra e o C\u00e9u. Ele argumenta que essa divis\u00e3o leva a outra vis\u00e3o dicot\u00f4mica da realidade, onde a ordem natural \u00e9 vista como inferior e necessitando da eleva\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a sobrenatural.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">No alvorecer da modernidade emerge um novo motivo-base, come\u00e7a com o humanismo do final da Idade M\u00e9dia, se desenvolve plenamente com o Iluminismo e que permanece dominante no nosso tempo: \u201cnatureza e liberdade\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Ele surge da tentativa moderna de entender a realidade a partir de dois p\u00f3los fundamentais: a natureza, que abrange todos os fen\u00f4menos observ\u00e1veis e mensur\u00e1veis, e a liberdade, que se refere \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es humanas de autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Dooyeweerd argumenta que essa dicotomia criou um terceiro dualismo igualmente problem\u00e1tico tal como os anteriores. De um lado, tem-se a ci\u00eancia natural, que busca explicar todos os fen\u00f4menos em termos de leis naturais e determin\u00edsticas. De outro, tem-se o ideal da liberdade humana, que envolve escolhas morais, culturais e religiosas.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Tais ensejam princ\u00edpios incompat\u00edveis e contradit\u00f3rios, gerando tens\u00e3o um em rela\u00e7\u00e3o ao outro.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">A ci\u00eancia moderna, especialmente a partir do s\u00e9culo XVII, passou a explicar o mundo natural em termos de causalidade e determinismo. Esta perspectiva determinista implica que todos os fen\u00f4menos, incluindo a conduta humana, s\u00e3o sujeitos a leis naturais inexor\u00e1veis. No entanto, o motivo base de liberdade sugere que os seres humanos possuem autonomia moral e a capacidade de autodetermina\u00e7\u00e3o, que parecem transgredir estas leis naturais. Dooyeweerd argumenta que essa dualidade cria uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental: como pode o ser humano ser ao mesmo tempo completamente determinado por leis naturais e autonomamente livre?<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">O motivo base da modernidade frequentemente separa a racionalidade cient\u00edfica da \u00e9tica. A ci\u00eancia moderna busca explica\u00e7\u00f5es racionais e empiricamente verific\u00e1veis para os fen\u00f4menos naturais, frequentemente marginalizando quest\u00f5es morais como subjetivas ou n\u00e3o cient\u00edficas. Para Dooyeweerd, isso cria uma tens\u00e3o insustent\u00e1vel: como pode a \u00e9tica ser relegada ao dom\u00ednio do subjetivo e ainda assim reivindicar um papel normativo na vida humana? Esta separa\u00e7\u00e3o ignora a interdepend\u00eancia dos diferentes aspectos da realidade, incluindo o racional e o moral.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Para Herman Dooyeweerd, o dualismo natureza-liberdade exemplifica uma divis\u00e3o fundamental no pensamento moderno, onde esses dois p\u00f3los s\u00e3o inconcili\u00e1veis. Essa divis\u00e3o criou inconsist\u00eancias que, segundo ele, afastam o ser humano da verdade plena. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"s3\"><span class=\"s4\"><span class=\"bumpedFont15\">Esta \u00e9 a chave para compreendermos os fundamentos \u00faltimos para o impasse que seguiremos explorando nos pr\u00f3ximos artigos.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 nossa investiga\u00e7\u00e3o acerca das raz\u00f5es fundamentais que explicam o veto interposto na academia para a \u2018hip\u00f3tese Deus\u2019 entre as poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es da origem e sentido da realidade, continuamos a esmiu\u00e7ar o pensamento de Herman Dooyeweerd. 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