{"id":223277,"date":"2024-06-17T09:16:07","date_gmt":"2024-06-17T12:16:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223277"},"modified":"2024-06-17T09:16:07","modified_gmt":"2024-06-17T12:16:07","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-08","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223277","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 08"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Na busca por estabelecer as bases te\u00f3ricas da tese que se pretende sustentar nesta s\u00e9rie, temos apresentado as teorias de tr\u00eas eminentes pensadores do s\u00e9culo XX. J\u00e1 analisamos Thomas Kuhn e Pierre Bourdieu, agora apresentaremos aspectos do pensamento de Herman Dooyeweerd um jusfil\u00f3sofo holand\u00eas que tem sido publicado recentemente em nosso idioma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dooyeweerd argumenta que a cultura \u00e9 fortemente condicionada por motivos b\u00e1sicos que n\u00e3o s\u00e3o de natureza intelectual, mas religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste caso, ele n\u00e3o designa \u2018religi\u00e3o\u2019 como sendo confiss\u00e3o religiosa, mas como o conjunto de pressupostos e cren\u00e7as fundamentais subjacentes ao ato de refletir e que moldam a maneira como experimentamos, compreendemos e interagimos com o mundo. Bases axiom\u00e1ticas que dirigem a maneira como enxergamos a natureza da realidade, do ser humano e do cosmos. Tais pressupostos e cren\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o expl\u00edcitos ou conscientes, por\u00e9m influenciam profundamente todas as nossas atividades reflexivas, incluindo a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dooyeweerd traz como seu pr\u00f3prio pressuposto a cren\u00e7a de que a religi\u00e3o est\u00e1 na raiz de toda a exist\u00eancia humana. Isso porque o ato de pensar implica em responder quest\u00f5es relacionadas ao pr\u00f3prio prop\u00f3sito do ato de pensar. Em outras palavras, para que se possa compreender qualquer coisa, antes devemos nos indagar sobre nossa origem, raz\u00e3o de existir e prop\u00f3sitos, quest\u00f5es que s\u00e3o tipicamente religiosas e se expressam em perguntas do tipo: de onde eu vim? Por que estou aqui? Para onde estou indo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda que tais indaga\u00e7\u00f5es encontrem respostas imanentistas, como aquelas sugeridas pelas correntes de base materialista e naturalista, a explica\u00e7\u00e3o mant\u00e9m necessariamente uma natureza religiosa, pois jamais se baseia em dados conclusivos e requerem inevitavelmente um salto de f\u00e9. As quest\u00f5es fundamentais tamb\u00e9m nos remetem necessariamente a \u201cum ato criativo\u201d. Por exemplo, para os criacionistas, tal ato resulta da decis\u00e3o de um criador pessoal, enquanto para os naturalistas, a for\u00e7a criadora \u00e9 a pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o e f\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o aspectos exaur\u00edveis t\u00e3o somente pela reflex\u00e3o rigorosa ou pela atividade met\u00f3dica t\u00edpicas das pr\u00e1ticas filos\u00f3fica e cient\u00edfica, mas dizem respeito a axiomas, ou seja, a disposi\u00e7\u00f5es religiosas. Da\u00ed Dooyeweerd recorrer \u00e0 express\u00e3o \u2018religi\u00e3o\u2019 como base para o ato de pensar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Partindo dessa constata\u00e7\u00e3o, Dooyeweerd diferencia dois tipos de reflex\u00e3o: o pensamento ing\u00eanuo (ou ordin\u00e1rio ou pr\u00e9-te\u00f3rico) e o pensamento te\u00f3rico. O primeiro refere-se \u00e0 maneira n\u00e3o-especializada com a qual as pessoas lidam com o mundo. Na pr\u00e1tica, contrariando Kant, o autor afirma que as pessoas percebem e interagem com a realidade de forma imediata, absorvendo o sentido das coisas nelas mesmas, \u00a0sem a necessidade de abstra\u00e7\u00f5es complexas, conceitualiza\u00e7\u00f5es imbricadas ou teorias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No pensamento ing\u00eanuo, as diferentes dimens\u00f5es da realidade n\u00e3o est\u00e3o separadas em modos estanques ou em categorias distintas. As pessoas percebem uma unidade interconexa de tudo com tudo, simplesmente experimentam a realidade em sua riqueza e diversidade de sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vou exemplificar com uma cena cotidiana, como a rela\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo com a sua geladeira: quando a pessoa abre a sua geladeira para pegar um suco, ela n\u00e3o reflete sobre a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica inerente ao fato daquela geladeira e aquele suco serem sua propriedade. N\u00e3o pensa nas complexas leis da termodin\u00e2mica que mant\u00eam o suco gelado, nem nos processos industriais que trouxeram o eletrodom\u00e9stico e o l\u00edquido at\u00e9 ali. Ele n\u00e3o abstrai as opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas que est\u00e1 realizando quando estima a quantidade que deve despejar no copo de maneira a evitar exaurir o suco e assim possa guardar um pouco para mais tarde. N\u00e3o pondera sobre as raz\u00f5es biol\u00f3gicas que o levaram a desejar hidratar-se com o suco, nem acerca da influ\u00eancia hist\u00f3rico-social sobre o seu paladar que exibe prefer\u00eancia por suco ao inv\u00e9s de leite ou ch\u00e1. Seu foco est\u00e1 na experi\u00eancia imediata de manusear o equipamento e saciar a sua sede.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Percebe a inexist\u00eancia de preocupa\u00e7\u00f5es tipicamente te\u00f3ricas, o que se verifica \u00e9 simplesmente a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pensamento te\u00f3rico (cient\u00edfico), por outro lado, \u00e9 caracterizado pela busca sistem\u00e1tica, met\u00f3dica e rigorosa de explicar a realidade em seus detalhes n\u00e3o percebidos na intera\u00e7\u00e3o cotidiana. Tal forma de pensar envolve abstrair, fragmentar e analisar particularidades verificadas na realidade que \u00e9 necessariamente integral. Em vez de captar a experi\u00eancia imediata, ele busca compreender as leis e princ\u00edpios subjacentes que governam os fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ci\u00eancia \u00e9 dividida em v\u00e1rias disciplinas especializadas, cada uma focando em aspectos distintos da realidade (como f\u00edsica, biologia, sociologia etc.) que em si mesma \u00e9 uma e integral. Cada disciplina desenvolve suas pr\u00f3prias metodologias e teorias para investigar uma \u00e1rea spec\u00edfica a fim de descortinar detalhes da realidade, sistematiz\u00e1-los e explic\u00e1-los.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Afastando-se da dicotomia grega que op\u00f5e <span class=\"s4\">doxa<\/span> e <span class=\"s4\">episteme<\/span>, que no mundo moderno enseja a qualifica\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos considerados leg\u00edtimos e aqueles de segunda classe, Dooyeweerd argumenta que o pensamento ing\u00eanuo \u00e9 a base do cient\u00edfico. O autor n\u00e3o reproduz o consenso de que o senso comum \u00e9 um pensamento inferior e contaminado enquanto a reflex\u00e3o cient\u00edfica e presumivelmente rigorosa e verdadeira. Ao contr\u00e1rio, para ele, o pensamento cient\u00edfico serve t\u00e3o somente para explicar detalhes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ambas formas de refletir encontram-se sustentados nos pressupostos axiom\u00e1ticos que correspondem ao que Dooyeweerd caracteriza como sendo a dimens\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dooyeweerd argumenta que toda forma de conhecimento, incluindo o conhecimento cient\u00edfico, \u00e9 baseada em pressupostos religiosos, ou seja, em cren\u00e7as fundamentais n\u00e3o examinadas e n\u00e3o submetidas ao crivo cr\u00edtico mas que moldam a maneira como percebemos e investigamos a realidade. Assim, mesmo a ci\u00eancia, que muitas vezes se considera neutra e objetiva, \u00e9 influenciada por uma vis\u00e3o de mundo que possui ra\u00edzes religiosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele argumenta que n\u00e3o existe um pensamento puramente neutro; os cientistas sempre operam a partir de uma perspectiva subjacente, que molda sua abordagem e interpreta\u00e7\u00e3o dos dados cient\u00edficos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em cada \u00e9poca um conjunto de pressupostos religiosos alicer\u00e7am a forma da sociedade pensar. Dooyeweerd d\u00e1 o nome para estes de \u201cmotivos base religiosos\u201d. Ao descrever a cultura Ociedental, o autor distingue quatro motivos b\u00e1sicos dominantes, tr\u00eas dos quais condicionam \u00e9pocas espec\u00edficas da hist\u00f3ria ocidental. S\u00e3o eles: forma e mat\u00e9ria; cria\u00e7\u00e3o\/queda\/reden\u00e7\u00e3o; natureza e gra\u00e7a e natureza e liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo artigo discutiremos cada qual , destacando aquele que circunscreve e afeta o paradigma cient\u00edfico contempor\u00e2neo ensejando profunda influ\u00eancia na forma como a ci\u00eancia lida com o tema da origem e sentido da realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o percam!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na busca por estabelecer as bases te\u00f3ricas da tese que se pretende sustentar nesta s\u00e9rie, temos apresentado as teorias de tr\u00eas eminentes pensadores do s\u00e9culo XX. 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