{"id":223194,"date":"2024-06-11T20:44:35","date_gmt":"2024-06-11T23:44:35","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223194"},"modified":"2024-06-11T20:44:35","modified_gmt":"2024-06-11T23:44:35","slug":"por-que-nao-deus-investigando-as-razoes-ocultas-por-tras-da-rejeicao-da-hipotese-deus-pela-academia-parte-06","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=223194","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o Deus? Investigando as raz\u00f5es ocultas por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o da Hip\u00f3tese Deus pela academia &#8211; Parte 06"},"content":{"rendered":"<p class=\"s3\">Continuamos explorando a teoria de Pierre Bourdieu a fim de oferecer o instrumental para uma explica\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo sociol\u00f3gica e hist\u00f3rica para o fato da acad\u00eamica rejeitar a ideia Deus como um hip\u00f3tese v\u00e1lida para explicar a origem e o sentido da realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao lado do conceito de campo (abordado no artigo anterior) Bourdieu circunscreve sua pr\u00f3pria ideia de \u201ccapital\u201d numa dimens\u00e3o que vai al\u00e9m do exclusivamente econ\u00f4mico. Para ele, o capital consiste em todo aquele recurso considerado escasso e cuja posse em determinado volume condiciona a ocupa\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es de maior ou menor prest\u00edgio no interior de dado campo. De certa maneira podemos afirmar que o capital \u00e9 aquilo que confere legitimidade ao indiv\u00edduo perante os seus pares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cada campo tem o seu capital t\u00edpico que n\u00e3o \u00e9 intercambi\u00e1vel, ou seja, possui valor t\u00e3o somente no pr\u00f3prio campo. Cada tipo de capital s\u00f3 vale no orbital que lhe corresponde, sendo muito custosa a sua transfer\u00eancia para outro campo, uma vez que existe uma taxa de convers\u00e3o enorme quando se pretende trocar um capital adquirido pelo t\u00edpico de outro campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por exemplo, o atleta que foi um sucesso na sua modalidade esportiva ter\u00e1 dificuldade para transferir esse capital caso queira tornar-se jornalista. Ou seu capital \u00e9 praticamente nulo se a inten\u00e7\u00e3o for tornar-se um participante do campo jur\u00eddico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas quem distribui os capitais? Os pr\u00f3prios participantes do campo. Por exemplo, no campo acad\u00eamico quem confere capital ao pesquisador s\u00e3o alunos e colegas que leem seus artigos, compram seus livros e os citam nas pr\u00f3prias publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os recursos que o indiv\u00edduo acumula para conseguir alcan\u00e7ar prest\u00edgio no campo? S\u00e3o aqueles t\u00edpicos do pr\u00f3prio campo. No caso em tela, s\u00e3o os t\u00edtulos, o prest\u00edgio da institui\u00e7\u00e3o a qual encontra-se vinculado, a qualifica\u00e7\u00e3o da revista cient\u00edfica na qual publica, \u2026 Tais conferem notoriedade e autoridade a determinados indiv\u00edduos segundo aquilo que os participantes aceitam como sendo importantes contribui\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3prio campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enfim, o capital acaba sendo determinado pelo n\u00edvel de reconhecimento que o sujeito obt\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos seus pares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para obter o trof\u00e9u \u00e9 necess\u00e1rio acumular capitais t\u00edpicos do campo, ou seja, a posse de certo volume de capital \u00e9 convertido em um determinado trof\u00e9u que \u00e9 igualmente t\u00edpico do campo, posto que o seu valor est\u00e1 restrito ao seu interior e depende da atribui\u00e7\u00e3o conferida pelos pr\u00f3prios contendores\/participantes do campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os trof\u00e9us s\u00e3o obviamente simb\u00f3licos s\u00f3 \u00e9 compreendido plenamente pelos participantes do campo. Fora dele, o trof\u00e9u pode aparentemente n\u00e3o representar absolutamente nada. Exemplos de trof\u00e9u \u00e9 ser destaque em um congresso importante, obter um t\u00edtulo honor\u00edfico ou uma c\u00e1tedra universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No campo h\u00e1 dominados e dominantes. Em seu interior, os participantes agem como jogadores. Em algumas jogadas cooperam e em outras disputam. Todos est\u00e3o interessados em alcan\u00e7ar os trof\u00e9us t\u00edpicos do campo, por\u00e9m, alguns v\u00e3o obter \u00eaxito e outros n\u00e3o; uns ganham, outros perdem. Cada qual age de maneira estrat\u00e9gica, ou seja, buscando otimizar meios e fins para alcan\u00e7ar \u00eaxito na disputa para acumular capital, no curto prazo, e alcan\u00e7ar trof\u00e9us no longo prazo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O campo tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o de interdi\u00e7\u00e3o. Pois s\u00f3 se pode agir em conformidade com os limites permiss\u00edveis consentidos pelos seus participantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No interior do campo n\u00e3o admite-se qualquer conduta, apenas o que \u00e9 socialmente aceit\u00e1vel pelos participantes do campo. Sendo assim, o pr\u00f3prio campo define aquilo que \u00e9 considerado seu valor e, consequentemente, define as estrat\u00e9gias inaceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em in\u00fameros casos a mesma estrat\u00e9gia pode ser sancionada para um campo e proibida, interditada, em outro. Por exemplo, no campo econ\u00f4mico o ato de copiar o concorrente \u00e9 digno de respeitabilidade caso a estrat\u00e9gia alcance o \u00eaxito que \u00e9 afirma\u00e7\u00e3o no mercado e a alavancagem de lucro. J\u00e1 no campo acad\u00eamico a c\u00f3pia \u00e9 uma estrat\u00e9gia fatal, pass\u00edvel de exclus\u00e3o do campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A interdi\u00e7\u00e3o pode resultar em penas. Algumas delas dizem respeito \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o, outras podem levar \u00e0 exclus\u00e3o. Existem n\u00edveis de gravidade de certas a\u00e7\u00f5es. Algumas a\u00e7\u00f5es podem determinar a exclus\u00e3o do agente que \u00e9 ent\u00e3o \u201ccondenado\u201d ao ostracismo. Como no exemplo acima, o pl\u00e1gio \u00e9 uma das atitudes mais gravosas que se pode realizar no campo acad\u00eamico,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio campo determina a suas heresias e estabelece as penas e o n\u00edvel de gravidade das san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mesmo pode ser dito sobre as tem\u00e1ticas tratadas. Allguns campos admitem tratar de certos assuntos, outros n\u00e3o admitem. Os participantes do campo erguem barreiras de entrada e selecionam os temas e assuntos considerados leg\u00edtimos pelo conjunto de participantes do campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez estabelecido o elenco de abordagens sancionadas, o conjunto dos participantes devem competir pelos capitais e trof\u00e9us segundo estes limites, sob pena de imputar a si mesmo uma irremedi\u00e1vel san\u00e7\u00e3o que pode variar entre perda de capital ao completo ostracismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E quanto aos conceitos bourdianos de <span class=\"s4\">habitus<\/span> e <span class=\"s4\">ilusio<\/span>? Nos voltaremos a eles no pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuamos explorando a teoria de Pierre Bourdieu a fim de oferecer o instrumental para uma explica\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo sociol\u00f3gica e hist\u00f3rica para o fato da acad\u00eamica rejeitar a ideia Deus como um hip\u00f3tese v\u00e1lida para explicar a origem e o sentido da realidade. &nbsp; Ao lado do conceito de campo (abordado no artigo anterior) [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":246,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1244],"tags":[],"class_list":["post-223194","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-oleg-abramov"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/223194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/246"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=223194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/223194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":223195,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/223194\/revisions\/223195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=223194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=223194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=223194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}