{"id":211300,"date":"2023-03-12T06:00:11","date_gmt":"2023-03-12T09:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=211300"},"modified":"2023-03-11T05:13:27","modified_gmt":"2023-03-11T08:13:27","slug":"o-brilho-de-proust","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=211300","title":{"rendered":"O Brilho de Proust"},"content":{"rendered":"<p>Estive no pampa ga\u00facho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartzmann, diretor da Biblioteca P\u00fablica Estadual de Porto Alegre, um not\u00e1vel colecionador liter\u00e1rio, autor do livro \u201cA Amante de Proust\u201d e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incr\u00edvel escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do Sul, n\u00e3o pude deixar de me lembrar do meu saudoso colega acad\u00eamico Moacyr Scliar, autor de mais de 80 livros, falecido em 2011.<\/p>\n<p>A harmonia da ascend\u00eancia comum, o juda\u00edsmo,\u00a0 explica muita coisa das nossas cren\u00e7as espirituais e liter\u00e1rias. Membro h\u00e1 35 anos da Academia Brasileira de Letras, da qual hoje sou vice-decano, sempre me interessei, particularmente, pela cultura francesa. Talvez por isso seja natural que tenha recebido a \u201c<em>L\u00e9gion d\u00b4Honneur<\/em>\u201d e a <em>Ordem das Letras e das Artes <\/em>do governo franc\u00eas.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o e Juda\u00edsmo s\u00e3o atividades que sempre estiveram entrela\u00e7adas, como se pode observar no livro \u201cEnsaios Judaicos\u201d, do professor Jaques Ribenboim, experiente membro da comunidade judaica do Recife, que assinala: \u201cExiste uma tradi\u00e7\u00e3o de letras \u00a0no povo de Israel. O livro mais lido do mundo (a B\u00edblia) foi escrito por seus descendentes.\u201d<\/p>\n<p>O escritor judeu produz uma escrita judaica, embora n\u00e3o trate especificamente de temas judaicos.\u00a0 \u00a0Marcel Proust teve um brilho especial na hist\u00f3ria do romance franc\u00eas do s\u00e9culo XX, particularmente em virtude do sucesso de \u201c<em>Em busca do tempo perdido<\/em>\u201d, obra publicada em sete partes, \u00a0de 1913 a 1927. Nela est\u00e1 a ideia de que a obra liter\u00e1ria tem por objeto voltar a encontrar, al\u00e9m do escoamento est\u00e9ril da vida cotidiana e mundana, o universo espelhado pelo esp\u00edrito e considerado, sob o aspecto da eternidade, que \u00e9 tamb\u00e9m o da arte.<\/p>\n<p>Com a sa\u00fade fragilizada desde a inf\u00e2ncia por conta da asma,\u00a0 a vida de Proust \u00e9, sem d\u00favida, o testemunho do permanente esfor\u00e7o para adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a, para a resist\u00eancia ao sofrimento. Chegou at\u00e9 a dizer que \u201ca ideia da morte o acompanhava com a mesma const\u00e2ncia quanto a da pr\u00f3pria identidade\u201d.<\/p>\n<p>George Cattaui (1896-1974), escritor franc\u00eas de origem eg\u00edcio-judaica, que publicou v\u00e1rios ensaios e biografias, analisou que o prazer na dor e na atribula\u00e7\u00e3o deveria, em parte, ser creditado ao sangue judeu de Proust, que o levava a considerar com desprezo \u2018\u2018o mundo inumano do prazer\u201d, e a defender o princ\u00edpio de que \u201ctoda a cria\u00e7\u00e3o tem que exigir ascese e sacrif\u00edcios\u201d. Para ele, a arte traduzia um valor absoluto. E a pr\u00f3pria obra liter\u00e1ria mostra muito bem a rela\u00e7\u00e3o que existiu entre o romancista e o mundo que procurou apresentar ao leitor. J\u00e1 se disse que a doen\u00e7a est\u00e1 para o romance de Proust, como o dinheiro na estrutura da <em>Com\u00e9die Humaine<\/em> . H\u00e1 estudiosos que afirmam que ele foi \u201co Balzac do fim da alta burguesia\u201d, que teria escrito \u201co epit\u00e1fio da aristocracia francesa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estive no pampa ga\u00facho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartzmann, diretor da Biblioteca P\u00fablica Estadual de Porto Alegre, um not\u00e1vel colecionador liter\u00e1rio, autor do livro \u201cA Amante de Proust\u201d e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incr\u00edvel escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[275],"tags":[],"class_list":["post-211300","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arnaldo-niskier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=211300"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":211301,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211300\/revisions\/211301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=211300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=211300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=211300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}