{"id":207889,"date":"2022-12-16T00:52:24","date_gmt":"2022-12-16T03:52:24","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=207889"},"modified":"2022-12-16T00:52:24","modified_gmt":"2022-12-16T03:52:24","slug":"platao-tambem-contemplou-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=207889","title":{"rendered":"Plat\u00e3o tamb\u00e9m contemplou Deus"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de sua obra, Plat\u00e3o fez afirma\u00e7\u00f5es enigm\u00e1ticas. Talvez a principal diga respeito \u00e0 exist\u00eancia das duas dimens\u00f5es da realidade:<\/p>\n<p>o mundo das ideias e o mundo sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Segundo ele, esta realidade a qual n\u00f3s todos pertencemos \u00e9 composta por formas imperfeitas materializadas como c\u00f3pia de formas perfeitas que possuem exist\u00eancia concreta, por\u00e9m, n\u00e3o aqui, mas no plano das ideias, que \u00e9 um mundo real de exist\u00eancia t\u00e1tica, todavia, transcendente ao nosso e inacess\u00edvel aos seres materiais.<\/p>\n<p>Na verdade, com esse pensamento, Plat\u00e3o estava respondendo \u00e0 mais contundente pol\u00eamica da aurora da filosofia, protagonizada por Parm\u00eanides e Her\u00e1clito: o problema do ser. Como conceber que algo \u201c\u00e9\u201d, se no mundo tudo muda? Ora, eu sou adulto? N\u00e3o! Pois, ontem eu fui crian\u00e7a e amanh\u00e3 serei idoso. Sendo assim, eu n\u00e3o \u201csou\u201d, eu simplesmente \u201cestou\u201d. Tal como ocorre conosco, ocorre com absolutamente tudo no mundo. Tudo est\u00e1 mudando, logo, nada \u00e9, conclui Parm\u00eanides.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o respondia ao problema dizendo que existe o ser de cada coisa, por\u00e9m ele n\u00e3o est\u00e1 aqui na Terra, ele habita o mundo das ideias.<\/p>\n<p>Foi a partir da\u00ed que veio uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es que ecoam atrav\u00e9s dos tempos, por meio da filosofia mais influente do mundo ocidental: a filosofia plat\u00f4nica.<\/p>\n<p>Quem nunca ouviu falar da \u201calegoria da caverna\u201d? Por\u00e9m, quem frequenta as obras mais conhecidas de Plat\u00e3o, como <em>A Rep\u00fablica, Apologia de S\u00f3crates <\/em>ou<em> O Banquete<\/em>, fica com uma d\u00favida n\u00e3o respondida por nenhuma dessas obras: porque as coisas se tornaram assim? Por que existem dois mundos? Como se d\u00e1 a conex\u00e3o entre forma perfeita e c\u00f3pias imperfeitas? Quem foi o respons\u00e1vel por isso tudo?<\/p>\n<p>E a resposta vem em uma obra menos \u201cfrequentada\u201d atualmente, escrita j\u00e1 na velhice do fil\u00f3sofo. Parece at\u00e9 que com a inten\u00e7\u00e3o de dizer coisas que ele queria falar mas n\u00e3o encontrara a oportunidade adequada. Uma obra que acaba amarrando todas as pontas soltas. Que obra \u00e9 essa? <em>O Timeu<\/em>.<\/p>\n<p>Nesta obscurecida obra da maturidade, Plat\u00e3o explica a origem de tudo e a raz\u00e3o das coisas serem como s\u00e3o. E, para tanto, na contram\u00e3o do polite\u00edsmo, da religi\u00e3o ol\u00edmpica grega, ele nos apresenta \u201co supremo\u201d denominado Demiurgo.<\/p>\n<p>Segundo Plat\u00e3o, antes dos tempos, haviam quatro coisas: o arqu\u00e9tipo, a matem\u00e1tica, a massa ca\u00f3tica e o Demiurgo. Dentre elas, apenas o \u00faltimo constitui um ente ativo, portador de capacidade criativa. Por sua decis\u00e3o, tomou a massa deformada e, observando o arqu\u00e9tipo, uma esp\u00e9cie de modelo, produziu cada coisa existente dando forma ao cosmos.<\/p>\n<p>A proposta de Plat\u00e3o \u00e9 muito parecida com a concep\u00e7\u00e3o monote\u00edsta semita que certamente ele n\u00e3o teve nenhum contato relevante. \u00c9 verdade que o Demiurgo n\u00e3o cria, mas organiza o caos, por\u00e9m \u00e9 ele que confere ess\u00eancia e conecta o mundo das ideias ao mundo sens\u00edvel dando alma e significado a todos os seres.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 fato que sua perspectiva \u00e9 henote\u00edsta pois busca conciliar o polite\u00edsmo grego com uma inovadora concep\u00e7\u00e3o monote\u00edsta, mas como poderia exigir dele um compromisso com um Deus \u00fanico em uma sociedade t\u00e3o radicalmente religiosa? Lembremos que antes dele, Anax\u00e1goras foi exilado e S\u00f3crates sentenciado \u00e0 morte, ambos condenados por afrontar filosoficamente a religi\u00e3o da cidade. A coexist\u00eancia talvez (isso \u00e9 uma hip\u00f3tese) n\u00e3o seja uma deriva\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de suas preocupa\u00e7\u00f5es, mas uma concess\u00e3o aos poderes religiosos que dominavam a sociedade em que vivia.<\/p>\n<p>O que leva Plat\u00e3o a conceber a figura de um Deus superior aos outros era uma necessidade de conciliar as grandes inquieta\u00e7\u00f5es de seu tempo: ser \/ n\u00e3o ser, forma \/ mat\u00e9ria e ainda solucionar um problema para seu pr\u00f3prio modelo de realidade repartida entre mundo das ideias e mundo sens\u00edvel.<\/p>\n<p>O que conclu\u00edmos? No alvorecer da raz\u00e3o, nos tempos \u00e1ureos da filosofia grega, atrav\u00e9s da pena de Plat\u00e3o, o mais influente intelectual do Ocidente, Deus era contemplado atrav\u00e9s da reflex\u00e3o l\u00f3gica, demonstrando um fato: para que o mundo fa\u00e7a sentido, Deus \u00e9 uma vari\u00e1vel n\u00e3o apenas importante, mas necess\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de sua obra, Plat\u00e3o fez afirma\u00e7\u00f5es enigm\u00e1ticas. Talvez a principal diga respeito \u00e0 exist\u00eancia das duas dimens\u00f5es da realidade: o mundo das ideias e o mundo sens\u00edvel. 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