{"id":184998,"date":"2021-07-07T19:33:42","date_gmt":"2021-07-07T22:33:42","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=184998"},"modified":"2021-07-07T19:33:42","modified_gmt":"2021-07-07T22:33:42","slug":"fa-de-acai-e-de-ervilha-popole-manda-recado-aos-demais-refugiados-acreditem-em-voces","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=184998","title":{"rendered":"F\u00e3 de a\u00e7a\u00ed e de ervilha, Popole manda recado aos demais refugiados: &#8216;Acreditem em voc\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Qualquer problema pessoal fica pequeno depois de uma conversa com Popole Misenga. O judoca, natural do Congo, que vive no Brasil desde 2013, foi anunciado pelo Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional, no dia 08.06, como um dos\u00a0<strong><a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/rededoesporte.gov.br\/pt-br\/noticias\/coi-anuncia-equipe-de-29-refugiados-para-os-jogos-olimpicos-de-toquio\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">29 integrantes do Time de Refugiados que disputar\u00e1 T\u00f3quio 2020<\/a><\/strong>. Ele \u00e9 o \u00fanico atleta residente no Brasil. Desde que pediu asilo ap\u00f3s competir o Mundial do Rio, Popole se reconstruiu: encontrou apoio, se casou, teve filhos e vai para a segunda edi\u00e7\u00e3o de Jogos Ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>\u201cTem pessoas que chegam e falam: voc\u00ea \u00e9 refugiado. Querem me ofender. Mas isso n\u00e3o me magoa porque sei o porqu\u00ea de eu estar aqui. Estou aqui hoje fazendo o esporte que sempre gostei, disputei os Jogos Ol\u00edmpicos aqui no Rio, algo que n\u00e3o sonhava, fui convocado de novo e estarei em T\u00f3quio\u201d, disse Misenga, em entrevista ao Canal Ol\u00edmpico do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cMuitos acham que os refugiados s\u00e3o apenas crian\u00e7as magras, passando fome ou doentes. Existem brasileiros que tamb\u00e9m passam fome, mas quando falam da \u00c1frica, as pessoas se chocam. Quando voc\u00ea sai do seu pa\u00eds fugindo e vai para o pa\u00eds do outro, voc\u00ea est\u00e1 ilegal. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 refugiado\u201d, explicou o atleta.<\/p>\n<p>Popole Misenga \u00e9 um dos poucos atletas do Time de Refugiados que participaram dos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio, quando a equipe fez a estreia levando uma importante mensagem de solidariedade. Agora, aos 29 anos, Popole volta ao palco ol\u00edmpico se sentindo um pouco mais brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cDa m\u00fasica, gosto mais de samba. Na comida, adoro a\u00e7a\u00ed, fruta que n\u00e3o posso ver que me d\u00e1 vontade de comer. Mas gosto muito tamb\u00e9m de sopa de ervilha. Quando est\u00e1 chovendo ou frio, j\u00e1 aviso minha mulher que vou querer um caldo. Sabe por qu\u00ea? Quando eu estava no abrigo para crian\u00e7as resgatadas, o pessoal da ONU sempre dava ervilha pra comermos. A gente comia direto isso com arroz. \u00c9 uma lembran\u00e7a boa\u201d, afirmou Popole.<\/p>\n<p>\u201cOs apoios do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (atrav\u00e9s do Solidariedade Ol\u00edmpica, operado pelo COB no Brasil) e da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jud\u00f4 mudaram minha vida, me deram for\u00e7a. A Olimp\u00edada do Rio entrou para a Hist\u00f3ria, meu nome est\u00e1 no livro. Meus descendentes v\u00e3o abrir, ver meu nome e poder\u00e3o dizer: meu pai, meu av\u00f4, meu bisav\u00f4 esteve em uma Olimp\u00edada. N\u00e3o \u00e9 qualquer atleta que disputa duas edi\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas. Estou feliz e orgulhoso\u201d, celebrou Popole.<\/p>\n<p>O judoca \u00e9 natural de Bukavu, fronteira com Ruanda, uma \u00e1rea gravemente afetada pela Segunda Guerra do Congo, que matou 6 milh\u00f5es de pessoas e deixou 500 mil refugiados. Depois que sua m\u00e3e foi assassinada, ele fugiu para uma floresta e vagou por uma semana, antes de ser levado de barco para a capital Kinshasa, onde come\u00e7ou a praticar jud\u00f4 num centro para crian\u00e7as resgatadas.<\/p>\n<p>\u201cComecei a fazer jud\u00f4 por brincadeira. Depois, n\u00e3o tinha dinheiro para a passagem, lutava para ir treinar. N\u00e3o imaginava que um dia seria atleta conhecido. J\u00e1 fui quatro vezes a T\u00f3quio: competir e treinar na casa do Jud\u00f4. Fui tamb\u00e9m para gravar um filme que vai passar durante os Jogos Ol\u00edmpicos. Fiquei emocionado por encontrar pessoas que eu via quando era crian\u00e7a e imaginava que eram incr\u00edveis. Foi um sonho! Eu pensava: sou muito inferior, mas n\u00e3o sou\u201d, contou o judoca.<\/p>\n<p>Em 2010, Popole foi bronze no Campeonato Africano Sub-20. Em 2013, depois da participa\u00e7\u00e3o no Mundial de Jud\u00f4 do Rio, pediu asilo no Brasil. Ele acusou os treinadores da sele\u00e7\u00e3o de prender os judocas no hotel e de usar a verba dos atletas para fazer turismo no Rio. Eles tamb\u00e9m afirmaram que, na \u00c1frica, os t\u00e9cnicos os deixavam com fome e os trancavam em gaiolas quando n\u00e3o tinham um bom desempenho nas competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois de desertar, ele e outra companheira de sele\u00e7\u00e3o foram levados por um angolano para Br\u00e1s de Pina, bairro de grande concentra\u00e7\u00e3o de imigrantes africanos no sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Em setembro de 2014, o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (ACNUR) concedeu oficialmente o status de refugiado a Popole.<\/p>\n<p>A Caritas, \u00f3rg\u00e3o da Arquidiocese do Rio de Janeiro que desenvolve um trabalho sistematizado de atendimento a refugiados no Brasil, intermediou o contato com Fl\u00e1vio Canto, criador do Instituto Rea\u00e7\u00e3o, que acolheu Misenga. Geraldo Bernardes, treinador que formou, al\u00e9m de Canto, a campe\u00e3 ol\u00edmpica Rafaela Silva, \u00e9, at\u00e9 hoje, respons\u00e1vel pelos treinamentos do judoca.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu ia na Caritas, ficava perturbando um fot\u00f3grafo que tinha l\u00e1, o Diego, perguntando se ele n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m do jud\u00f4, falando que eu era atleta, que jud\u00f4 era a coisa que eu mais sabia fazer na vida. Eu me tornei um cara chato, cobrava dele uma coisa que n\u00e3o tinha nada a ver com ele. Imagina: uma pessoa que n\u00e3o tem nada a ver com o jud\u00f4 e chega algu\u00e9m e te pergunta todo dia se n\u00e3o pode arrumar uma academia para voc\u00ea treinar? Conheci o Fl\u00e1vio Canto, que me apresentou ao Geraldo e falou: Geraldo, deixo esse filho pra voc\u00ea cuidar. N\u00e3o sabia muito o portugu\u00eas e chamava o Geraldo de \u2018minha\u2019 pai (risos). E estou aqui at\u00e9 hoje, feliz\u201d, relembrou o judoca congol\u00eas.<\/p>\n<p>De acordo com a quarta edi\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o Ref\u00fagio em N\u00fameros, divulgada em julho de 2019, o Brasil reconheceu oficialmente em 2018 um total de 1.086 refugiados de diversas nacionalidades. Com isso, o pa\u00eds atingiu a marca de 11.231 refugiados oficialmente reconhecidos pelo Estado. Desse total, os s\u00edrios representam 36% da popula\u00e7\u00e3o refugiada com registro ativo no Brasil, seguidos pelos congoleses, com 15%, e angolanos, com 9%. O n\u00famero de pedidos de ref\u00fagio, contudo, \u00e9 bem maior.<\/p>\n<p>\u201cOs refugiados que conheci n\u00e3o tinham muitos sonhos. Eu ainda quero ir a Paris 2024. Estou dedicado ao esporte. N\u00e3o bebo, n\u00e3o fumo, vivo treinando, todos os dias. Quando voc\u00ea entende os princ\u00edpios do que \u00e9 ser atleta, vai mais longe. Ent\u00e3o, sempre que pensar em mim, acredite. Mesmo com tudo o que passei, consegui chegar. Tem que escutar, observar, ter paci\u00eancia, aguentar, resistir. Eu era nada, mas hoje n\u00e3o sou mais que ningu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 refugiado que voc\u00ea n\u00e3o pode fazer uma coisa. Acredite em si mesmo\u201d, finalizou Popole.<\/p>\n<p>Fonte: Comit\u00ea Ol\u00edmpico do Brasil (COB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer problema pessoal fica pequeno depois de uma conversa com Popole Misenga. 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