{"id":165930,"date":"2020-08-03T18:50:10","date_gmt":"2020-08-03T21:50:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=165930"},"modified":"2020-08-03T18:50:10","modified_gmt":"2020-08-03T21:50:10","slug":"museu-apresenta-a-peca-da-semana-com-reedicao-da-obra-de-cervantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=165930","title":{"rendered":"Museu apresenta \u201cA Pe\u00e7a da Semana\u201d com reedi\u00e7\u00e3o da obra de Cervantes"},"content":{"rendered":"<p>O projeto \u201cA Pe\u00e7a da Semana\u201d apresenta nesta edi\u00e7\u00e3o item do acervo da Biblioteca do Museu \u201cMariano Proc\u00f3pio\u201d. Trata-se de dois volumes do famoso cl\u00e1ssico da literatura universal, \u201cO Engenhoso Fidalgo D. Quichote de la Mancha\u201d, do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). O livro \u00e9 reedi\u00e7\u00e3o portuguesa, datada de 1876\/1878, realizada no Porto, pela Imprensa da Companhia Liter\u00e1ria. A dist\u00e2ncia temporal que separa esta edi\u00e7\u00e3o da primeira \u00e9 de cerca de 2 70 anos. Publicado em 1605, o romance de Cervantes se tornou, ao longo dos tempos, um dos mais lidos mundialmente. Algumas ilustra\u00e7\u00f5es do livro ser\u00e3o publicadas nas redes sociais do museu.<\/p>\n<p>O personagem \u201cD. Quixote\u201d, tamb\u00e9m conhecido como \u201co intr\u00e9pido cavaleiro da triste figura\u201d, ao lado de seu fiel escudeiro, \u201cSancho Pan\u00e7a\u201d, e em cima de seu cavalo \u201cRocinante\u201d, tornou-se o arqu\u00e9tipo do homem idealista, insaci\u00e1vel na busca e na luta por seus sonhos. Dentre as passagens mais emblem\u00e1ticas da longa narrativa, a que talvez esteja mais profundamente arraigada no imagin\u00e1rio popular, \u00e9 aquela em que o personagem aparece lutando contra moinhos de vento, como se pode ver na litogravura digitalizada junto a essa postagem.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de fartas ilustra\u00e7\u00f5es nessa edi\u00e7\u00e3o da obra de Cervantes tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o. Foram produzidas mais de dois s\u00e9culos ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro. S\u00e3o de autoria do desenhista e gravurista franc\u00eas Gustave Dor\u00e9 (1832-1883), internacionalmente reconhecido por seus trabalhos de ilustra\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias. Na biblioteca do Museu h\u00e1 outros exemplares ilustrados com as gravuras deste artista. Atualmente, algumas edi\u00e7\u00f5es de \u201cD. Quixote\u201d, inclusive as de bolso \u2013 apesar de utilizarem suportes e t\u00e9cnicas de impress\u00e3o muito diferentes dos padr\u00f5es adotados no s\u00e9culo 19 &#8211; reproduzem as ilustra\u00e7\u00f5es de Dor\u00e9, demonstrando sua import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria do livro e da leitura, n\u00e3o apenas no mundo oitocentista, mas tamb\u00e9m nos dias de hoje.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o apresentada tamb\u00e9m impressiona pelas suas dimens\u00f5es: o volume um mede 44 cm de altura, 33 de largura e sete de espessura do corte; o dois, 43,5 de altura, 33 de largura e oito de espessura. S\u00e3o medidas diferentes das publica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Ao longo do tempo, com o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico no campo editorial, os livros foram reduzindo de tamanho, atendendo \u00e0s demandas de maior circula\u00e7\u00e3o e alcance de p\u00fablico mais amplo. Afinal, tamanhos mais reduzidos favorecem a portabilidade e a pr\u00e1tica da leitura em diferentes momentos e espa\u00e7os, conferindo maior conforto e despojamento.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00f5es de luxo, como esta, em grandes dimens\u00f5es, eram produzidas para que as obras fossem colocadas sobre mesa ou algum outro suporte, exigindo do leitor postura mais disciplinada: em p\u00e9 ou sentado. Como destaca o historiador Robert Darton, durante muito tempo, sobretudo em decorr\u00eancia do pouco n\u00famero de pessoas alfabetizadas em v\u00e1rias comunidades europeias, as leituras em voz alta eram pr\u00e1ticas muito comuns. Dessa forma, enquanto uma pessoa lia, o grupo ao seu redor tamb\u00e9m desfrutava o prazer das narrativas. Foi assim que muitas obras \u2013 inclusive \u201cD. Quixote\u201d \u2013 conseguiram consolidar sua populariza\u00e7\u00e3o em diferentes pa\u00edses e culturas.<\/p>\n<p>O romance cervantino \u2013 considerado por muitos especialistas esp\u00e9cie de \u201cinaugurador\u201d do estilo moderno, foi lido, relido, interpretado e reinterpretado in\u00fameras vezes por diferentes culturas \u2013 sobretudo na Am\u00e9rica Latina. No Brasil, C\u00e2mara Cascudo identificou a presen\u00e7a dos personagens cervantinos nas mem\u00f3rias populares, atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o oral. Segundo o estudioso, esse romance j\u00e1 teria aqui chegado \u2013 provavelmente no nordeste \u2013 no s\u00e9culo 16, no per\u00edodo conhecido como dom\u00ednio espanhol. Al\u00e9m disso, o autor n\u00e3o descarta a possibilidade de muitos imigrantes espanh\u00f3is terem trazido consigo essa forte heran\u00e7a cultural.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que \u201cD. Quixote\u201d deixou marcas na cultura brasileira, inspirando, inclusive, a publica\u00e7\u00e3o de duas revistas humor\u00edsticas com esse mesmo nome, em contextos diferentes do pa\u00eds: a primeira, no final do s\u00e9culo 19, fundada por \u00c2ngelo Agostini (1842-1910), e a segunda, em 1917, por Bastos Tigre. Ambos os peri\u00f3dicos se dedicavam \u00e0 defesa do humor como express\u00e3o da identidade nacional. A segunda, em particular (como afirma a historiadora Monica Pimenta Velloso), apropriou-se do \u201ccavaleiro da triste figura\u201d como s\u00edmbolo aglutinador de intelectuais humoristas e bo\u00eamios, que tinham como um dos fortes prop\u00f3sitos dessacralizar a hist\u00f3ria oficial brasileira atrav\u00e9s das caricaturas e de outras linguagens humor\u00edsticas, compondo um dos segmentos do complexo e plural modernismo brasileiro, nos anos iniciais do s\u00e9culo 20. Os desenhos feitos pelo pintor modernista brasileiro C\u00e2ndido Portinari, na d\u00e9cada de 1950, com cores variadas e toques expressionistas, tamb\u00e9m representaram a carga simb\u00f3lica do arqu\u00e9tipo desse her\u00f3i cervantino, que, h\u00e1 muito tempo, e de m\u00faltiplas maneiras, povoa o imagin\u00e1rio popular.<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>CHARTIER, Roger. Textos, impress\u00e3o, leituras. In: HUNT, Lynn. \u201cA Nova Hist\u00f3ria Cultural\u201d. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 211-238.<\/p>\n<p>DARTON, Robert. \u201cHist\u00f3ria do Livro e da Leitura\u201d. In: BURKE, Peter (org.). \u201cA Escrita da Hist\u00f3ria\u201d. S\u00e3o Paulo: Universidade Estadual Paulista (Unesp) 2005.<\/p>\n<p>VELLOSO, Monica Pimenta. \u201cModernismo no Rio de Janeiro: Turunas e Quixotes\u201d. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o \u201cGet\u00falio Vargas\u201d (FGV), 1996.<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0<\/strong>Assessoria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto \u201cA Pe\u00e7a da Semana\u201d apresenta nesta edi\u00e7\u00e3o item do acervo da Biblioteca do Museu \u201cMariano Proc\u00f3pio\u201d. Trata-se de dois volumes do famoso cl\u00e1ssico da literatura universal, \u201cO Engenhoso Fidalgo D. Quichote de la Mancha\u201d, do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). 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