{"id":140438,"date":"2019-05-18T08:30:03","date_gmt":"2019-05-18T11:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=140438"},"modified":"2019-05-18T08:30:03","modified_gmt":"2019-05-18T11:30:03","slug":"pacientes-com-transtorno-mental-tem-direito-a-tratamento-humanizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=140438","title":{"rendered":"Pacientes com transtorno mental t\u00eam direito a tratamento humanizado"},"content":{"rendered":"<p>Era in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, em Salvador, Bahia. Eduardo Calliga,\u00a0hoje\u00a0com 57 anos de idade, deixava a adolesc\u00eancia para se transformar em um jovem adulto, quando passou a\u00a0ter\u00a0alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios. O diagn\u00f3stico correto \u2013 esquizofrenia, doen\u00e7a grave que acomete 21 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u2013 demorou anos a ser fechado. Nesse intervalo, o jovem foi submetido a interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias em diversas institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n<p>Ele ressalta que, em sua trajet\u00f3ria de interna\u00e7\u00f5es e falta de diagn\u00f3stico correto, parte das tribula\u00e7\u00f5es poderia\u00a0ter\u00a0sido evitada caso sua fam\u00edlia soubesse lidar com o\u00a0dist\u00farbio.\u00a0Dados da OMS mostram que, no caso da esquizofrenia, mais da metade dos pacientes n\u00e3o obt\u00e9m o tratamento apropriado, propor\u00e7\u00e3o que atinge 90% em pa\u00edses de renda m\u00e9dia e baixa.<\/p>\n<p>Anos depois, aos 40 anos, ele tentava constituir a pr\u00f3pria fam\u00edlia, com o nascimento da filha. Mas o receio de ser um fardo para quem amava afastou Calliga da companheira e da menina, com quem conviveu at\u00e9\u00a0que completasse\u00a0seu terceiro ano de vida.<\/p>\n<p>Apesar de ter come\u00e7ado a construir uma vida com a qual sonhava, o sentimento de desamparo era maior e ele decidiu ir morar na rua. Calliga n\u00e3o achava que a fam\u00edlia poderia ajud\u00e1-lo e avaliava que o Estado n\u00e3o provia suas necessidades.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias intercorriam como na hist\u00f3ria do rei T\u00e2ntalo, que, faminto, chegava a avistar frutos que poderiam servir de alimento, mas, ao se aproximar deles, n\u00e3o conseguia alcan\u00e7\u00e1-los. Calliga, ao narrar sua hist\u00f3ria \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, descreve sua viv\u00eancia com um sentimento semelhante.<\/p>\n<p>Ciente do transtorno mental, hoje, ele faz tratamento com medicamentos, mas afirma que os la\u00e7os afetivos rompidos nunca foram reatados.<\/p>\n<h2>Vida de interna\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, condi\u00e7\u00e3o que o faz ouvir vozes, Calliga chegou a ser tratado erroneamente para transtorno bipolar.<\/p>\n<p>Ele lembra que, nas vezes em que foi\u00a0internado, agentes da Pol\u00edcia Militar faziam o encaminhamento \u00e0s institui\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. Ele afirma que esses profissionais n\u00e3o tinham o preparo adequado para atuar nessas circunst\u00e2ncias e critica os locais em que foi internado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um lugar de segrega\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. Tinha conten\u00e7\u00e3o, usavam a for\u00e7a bruta para nos conter atrav\u00e9s da medica\u00e7\u00e3o ou ser amarrado na pr\u00f3pria maca. O lugar era o mais \u00e1rido poss\u00edvel. Uso a ferramenta das artes, sobretudo a poesia, para falar desses lugares\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cA roupa que davam pra voc\u00ea, coubesse ou n\u00e3o em voc\u00ea, voc\u00ea tinha que vestir. O banho era \u00e0s 5 horas da manh\u00e3. Aqueles que estavam meio sonolentos tinham que levantar e os que n\u00e3o conseguiam eram puxados \u00e0 for\u00e7a pelo t\u00e9cnico de enfermagem, que, geralmente, era homem, de porte f\u00edsico avantajado e metia medo. Isso \u00e9 real&#8221;,\u00a0relembra.<\/p>\n<p>Calliga afirma que sua m\u00e3e tamb\u00e9m tinha transtornos mentais e que os parentes faziam piada. Um de seus dois irm\u00e3os, j\u00e1 falecido, era alco\u00f3latra.<\/p>\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e fez uso de eletrochoques e era alvo de goza\u00e7\u00e3o na hora do almo\u00e7o, em reuni\u00f5es sociais, em que lembravam isso de forma ir\u00f4nica, como brincadeira.\u00a0Hoje\u00a0consigo identificar mais pessoas pr\u00f3ximas que tamb\u00e9m tinham quest\u00f5es de sa\u00fade mental&#8221;, comenta Calliga.<\/p>\n<h2>Milit\u00e2ncia<\/h2>\n<p>H\u00e1 cerca de um ano, Calliga tornou-se membro do Conselho Estadual de Sa\u00fade da Bahia. O objetivo \u00e9 ajudar os pacientes com transtornos mentais a ter acesso a um atendimento humanizado.<\/p>\n<p>Com o objetivo de reafirmar os direitos dos pacientes, lembrados\u00a0hoje\u00a0(18),\u00a0Dia Nacional da Luta Antimanicomial, ele integra a Associa\u00e7\u00e3o Metamorfose Ambulante de Usu\u00e1rios e Familiares do Servi\u00e7o de Sa\u00fade Mental (Amea). A data lembra a san\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/leis_2001\/l10216.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei n\u00ba 10.216\/2001<\/a>, tamb\u00e9m conhecida como Lei da Reforma Psiqui\u00e1trica, sancionada pelo ent\u00e3o presidente Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Ele reconhece a import\u00e2ncia da posi\u00e7\u00e3o dentro do conselho e a dignidade que alcan\u00e7ou ao ocupar o cargo. Calliga afirma ainda que recobrou sua cidadania quando deixou de ser identificado como paciente 7, &#8220;n\u00famero que nem mudava&#8221;. Para ele, ter a bandeira de sa\u00fade mental como milit\u00e2ncia \u00e9 um ato de &#8220;amor extremo&#8221;.<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7a de paradigma<\/h2>\n<p>Na busca por um modelo mais humanizado, Calliga defende o atendimento oferecido pelos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (Caps) que preconiza um cuidado que se op\u00f5e \u00e0 l\u00f3gica do sistema asilar e combate o isolamento social.<\/p>\n<p>Os Caps fazem parte da Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (Raps), que, segundo Calliga, deve estar \u00a0amarrada com outras pol\u00edticas p\u00fablicas, de modo que os usu\u00e1rios do servi\u00e7o possam dar continuidade a suas atividades laborais, caso sua condi\u00e7\u00e3o permita, gerando seu pr\u00f3prio sustento, e possam ter acesso a outros atendimentos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ele argumenta que o funcionamento da rede \u00e9 fundamental para casos como o dele que, com diabetes, perdeu um dedo do p\u00e9. Ele afirma que sobrevive com um benef\u00edcio concedido pelo governo.<\/p>\n<p>Para Calliga, \u00e9 preciso mudar o entendimento da sociedade\u00a0sobre a loucura. &#8220;N\u00e3o posso ser feliz se ainda h\u00e1 pessoas que n\u00e3o sabem nem o que \u00e9\u00a0ter\u00a0direito. Existem outros Eduardos tamb\u00e9m, Marias, Jo\u00e3os.\u00a0A gente precisa mudar um pouco o di\u00e1logo com a sociedade. Muita gente acha que o louco \u00e9 aquele que d\u00e1 pedrada em carro. Loucura \u00e9 quando as pessoas que t\u00eam o poder da caneta nas m\u00e3os n\u00e3o fazem nada para melhorar o nosso sistema de sa\u00fade, lutam contra ele&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;O preconceito \u00e9 muito vis\u00edvel e penetra o tecido social tal como a \u00e1gua penetra os poros de uma rocha&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<h2>Caps no Distrito Federal<\/h2>\n<p>Gerente do Caps \u00c1lcool e Drogas (Caps AD), localizado em Sobradinho, regi\u00e3o administrativa do Distrito Federal, Sara Suene afirma que o esclarecimento e a integra\u00e7\u00e3o voltados ao paciente e \u00e0 sua fam\u00edlia norteiam o trabalho da unidade.<\/p>\n<p>Estudante do 7\u00ba per\u00edodo do curso de enfermagem, Sara diz promover uma pol\u00edtica de escuta, segundo a qual nada deve ser debatido e decidido sem ouvir as pessoas com transtornos mentais.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dela, que na \u00faltima\u00a0quarta-feira (15) organizou uma caminhada para marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, toda interna\u00e7\u00e3o deve ser volunt\u00e1ria, ou seja, deve partir da vontade e decis\u00e3o da pessoa diagnosticada com o transtorno.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sabe que tem relatos de lugares que n\u00e3o adotam a nossa conduta, um tratamento humanizado, que s\u00e3o a favor de manic\u00f4mios. Na verdade, n\u00e3o devia existir manic\u00f4mio mais. Acho que todo mundo devia receber um tratamento que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 medicamentoso&#8221;, afirma a gerente.<\/p>\n<p>De acordo com a Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal, h\u00e1 16 Caps em funcionamento na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Sara, ao chegar ao local, o p\u00fablico \u00e9 atendido por auxiliares de enfermagem, que fazem a ficha cadastral e ficam respons\u00e1veis pelo acolhimento dos usu\u00e1rios. Em seguida, um dos enfermeiros faz a triagem, que ajuda a definir a qual grupo de trabalho a pessoa deve se dirigir.<\/p>\n<p>Os grupos de trabalho, explica, s\u00e3o os espa\u00e7os onde os pacientes s\u00e3o ouvidos e &#8220;ocupam a mente&#8221;, atrav\u00e9s da oficina de horta e de atividades culturais e de lazer, semanalmente, conforme sua demanda e necessidade. A equipe do Caps AD \u00e9 composta por 21 funcion\u00e1rios, todos servidores concursados, dos quais dois s\u00e3o psic\u00f3logos e dois psiquiatras. Os outros profissionais t\u00eam forma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o social, terapia ocupacional e enfermagem.<\/p>\n<p>Perguntada sobre o tempo de espera para a marca\u00e7\u00e3o de consultas psiqui\u00e1tricas, Sara informou que levam, em m\u00e9dia, de 10 a 15 dias. Pacientes com casos de abstin\u00eancia, desintoxica\u00e7\u00e3o ou outros tipos de crises s\u00e3o atendidos em outras unidades, uma na regi\u00e3o central de Bras\u00edlia e outra em Planaltina, a cerca de 45 quil\u00f4metros do centro da capital federal. N\u00e3o h\u00e1, contudo, uma ambul\u00e2ncia que possa transport\u00e1-los de um ponto para o outro, caso tentem dar entrada, ap\u00f3s uma crise se desencadear, em um Caps que n\u00e3o atenda esse tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Eles [os pacientes] t\u00eam que ser envolvidos nos grupos e tamb\u00e9m junto com familiar, tanto \u00e9 que tem grupo de fam\u00edlia. Muitas vezes, o paciente n\u00e3o conversa com o familiar em casa e aqui minha equipe consegue fazer com que tenham esse di\u00e1logo&#8221;, pondera a gerente. &#8220;A gente vai ofertar aqui no nosso Caps palestras para forma\u00e7\u00e3o social, para eles sa\u00edrem sabendo quais s\u00e3o seus dons. \u00c0s vezes, ele \u00e9 um artes\u00e3o e n\u00e3o sabe.&#8221;<\/p>\n<p>Para Sara, a miss\u00e3o dos Caps \u00e9 tratar o paciente e promover sua inclus\u00e3o social, sem que sua condi\u00e7\u00e3o se agrave a ponto de\u00a0ter\u00a0que ir a uma unidade de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, os Caps s\u00e3o &#8220;unidades que prestam servi\u00e7os de sa\u00fade de car\u00e1ter\u00a0aberto e comunit\u00e1rio, constitu\u00eddo por equipe multiprofissional que atua sobre a \u00f3tica interdisciplinar e realiza prioritariamente atendimento \u00e0s pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de \u00e1lcool e outras drogas&#8221;. Ainda segundo a pasta, eles substituem o modelo asilar, ou seja, aqueles em que os pacientes deveriam morar (manic\u00f4mios).<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, em Salvador, Bahia. Eduardo Calliga,\u00a0hoje\u00a0com 57 anos de idade, deixava a adolesc\u00eancia para se transformar em um jovem adulto, quando passou a\u00a0ter\u00a0alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios. O diagn\u00f3stico correto \u2013 esquizofrenia, doen\u00e7a grave que acomete 21 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":140439,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[302,436,439],"tags":[],"class_list":["post-140438","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil-mundo","category-destaque-da-semana","category-ultima-hora"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/140438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=140438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/140438\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/140439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=140438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=140438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=140438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}