{"id":124809,"date":"2018-11-05T12:22:03","date_gmt":"2018-11-05T14:22:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=124809"},"modified":"2018-11-05T12:22:03","modified_gmt":"2018-11-05T14:22:03","slug":"atingidos-na-tragedia-de-mariana-buscam-apoio-contra-a-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=124809","title":{"rendered":"Atingidos na trag\u00e9dia de Mariana buscam apoio contra a depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eu cheguei a um quadro alguns meses atr\u00e1s que parecia que viver ou morrer era a mesma coisa. Perdi a vontade, a perspectiva foi a zero. Mas quando tenho esses pensamentos, eu lembro do meu pai que est\u00e1 com 88 anos e vai precisar muito de mim ainda. N\u00f3s mor\u00e1vamos a 10 metros de dist\u00e2ncia. Hoje ele est\u00e1 em outra casa, e eu estou a dois quil\u00f4metros dele. Ele chora por causa dessa situa\u00e7\u00e3o e aquilo corta o cora\u00e7\u00e3o da gente.&#8221;<\/p>\n<p>O depoimento de Romeu Geraldo de Oliveira, 43 anos, \u00e9 apenas um de v\u00e1rios relatos de depress\u00e3o entre os moradores atingidos pelo maior desastre ambiental j\u00e1 ocorrido no Brasil e que nesta segunda-feira, 5, completa tr\u00eas anos. Ele morava no distrito Paracatu, em Mariana (MG), quando a lama de rejeitos que escapou da barragem da mineradora Samarco devastou toda a comunidade.<\/p>\n<p>As\u00a0obras de reconstru\u00e7\u00e3o dos distritos atrasaram\u00a0e, enquanto o reassentamento n\u00e3o ocorre, os atingidos vivem na \u00e1rea urbana do munic\u00edpio, em casas alugadas pela Funda\u00e7\u00e3o Renova, que foi criada para reparar todos os danos causados.<\/p>\n<p>Romeu disse que s\u00f3 melhorou depois de procurar apoio profissional. \u201cEu sou muito calado, n\u00e3o tenho aquela iniciativa de procurar algu\u00e9m para desabafar. E acabo segurando para mim. Mas chegou um ponto que eu n\u00e3o estava aguentando. E o atendimento psicol\u00f3gico tem me ajudado demais&#8221;, relata.<\/p>\n<h2>Estudo<\/h2>\n<p>Em abril deste ano, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um\u00a0estudo sobre a sa\u00fade mental\u00a0dos atingidos na trag\u00e9dia. O levantamento mostrou que quase 30% deles sofrem com depress\u00e3o. O percentual \u00e9 cinco vezes superior ao constatado na popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), em 2015, 5,8% dos brasileiros tinham depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os resultados do estudo apontaram ainda para o diagn\u00f3stico de transtorno de ansiedade generalizada em 32% dos entrevistados, preval\u00eancia tr\u00eas vezes maior que a existente na popula\u00e7\u00e3o brasileira. \u00cdndices preocupantes tamb\u00e9m foram constatados em rela\u00e7\u00e3o ao risco de suic\u00eddio e ao uso de subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas, como \u00e1lcool, tabaco, maconha, crack, coca\u00edna.<\/p>\n<p>O estudo foi conduzido em parceria com a C\u00e1ritas, entidade escolhida pelos atingidos que moram em Mariana para prestar assessoria t\u00e9cnica no processo de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O \u00f3cio \u00e9 muito triste. As pessoas est\u00e3o em um processo de adoecimento porque, na cidade, o modo de vida \u00e9 completamente alterado. E al\u00e9m de terem perdido suas atividades cotidianas, os vizinhos n\u00e3o se encontram mais. Drogadi\u00e7\u00e3o, alcoolismo, depress\u00e3o. Algumas situa\u00e7\u00f5es j\u00e1 existiam na comunidade, mas foram agu\u00e7adas ap\u00f3s o rompimento da barragem&#8221;, diz Ana Paula dos Santos Alves, assessora t\u00e9cnica da C\u00e1ritas.<\/p>\n<h2>Problemas de sa\u00fade<\/h2>\n<p>Em Gesteira, distrito de Barra Longa (MG), a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. A lama que alcan\u00e7ou a comunidade atrav\u00e9s do Rio Gualaxo do Norte tamb\u00e9m trouxe impactos para al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o das casas. &#8220;Subiu a press\u00e3o, come\u00e7ou a ter problema no cora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 tomando um punhado de rem\u00e9dios&#8221;, conta Pedro Estev\u00e3o da Silva, 54 anos, sobre sua m\u00e3e, que perdeu o lote onde tinha uma horta.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Marcos da Costa tamb\u00e9m est\u00e1 lidando com as complica\u00e7\u00f5es na sa\u00fade de sua m\u00e3e. &#8220;Ela j\u00e1 morava na parte alta de Gesteira, que n\u00e3o foi afetada, mas tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito forte com a casa onde eu morava, que tinha sido dos meus av\u00f3s. Ela ia l\u00e1 todos os dias, ajudava a cuidar da casa e do meu tio, que morava comigo e tem problemas mentais. Ela acabou tendo um problema de depress\u00e3o muito forte. E at\u00e9 hoje n\u00e3o foi reconhecida como atingida&#8221;.<\/p>\n<p>Atualmente, a m\u00e3e de Ant\u00f4nio Marcos, de 50 anos, toma seis medicamentos diferentes e faz acompanhamento com psiquiatra particular que a atende regularmente em Ponte Nova (MG). O apoio profissional permitiu uma melhora. Segundo Ant\u00f4nio, as consultas tem custado R$ 350 por m\u00eas e ainda h\u00e1 os gastos com o transporte at\u00e9 o munic\u00edpio vizinho.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que ela \u00e9 at\u00e9 mais atingida do que eu. Eu perdi a casa, mas a sa\u00fade vem antes das quest\u00f5es materiais&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o escolhida pelos atingidos de Gesteira para oferecer assist\u00eancia t\u00e9cnica, Aedas, garantiu a Ant\u00f4nio Marcos que ir\u00e1 atuar pelo reconhecimento de sua m\u00e3e como um dos atingidos, o que lhe garantir\u00e1 tratamento e indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Sa\u00fade mental<\/h2>\n<p>Em Mariana, a psic\u00f3loga Ma\u00edra Almeida Carvalho \u00e9 uma das profissionais que vem atuando exclusivamente com os atingidos que sofreram deslocamento for\u00e7ado dos distritos para a \u00e1rea urbana do munic\u00edpio. Ela foi contratada pela Secretaria Municipal de Sa\u00fade em janeiro de 2016, tr\u00eas meses ap\u00f3s o rompimento da barragem. O sal\u00e1rio \u00e9 pago pela Funda\u00e7\u00e3o Renova, que firmou um compromisso judicial de suplementar os servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica em Mariana e em Barra Longa.<\/p>\n<p>Segundo Ma\u00edra, atuam na equipe 10 profissionais, incluindo psiquiatra, assistente social, arte terapeuta, psic\u00f3logo e terapeuta ocupacional. Eles acompanham cerca de 350 fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma reavalia\u00e7\u00e3o contante junto \u00e0 Secretaria Municipal de Sa\u00fade sobre a necessidade de novas contrata\u00e7\u00f5es. Atualmente \u00e9 a equipe que temos e que tem dado conta de atender as demandas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>De acordo com Ma\u00edra, a aten\u00e7\u00e3o profissional ser\u00e1 necess\u00e1ria mesmo ap\u00f3s o reassentamento.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga relata que processos de adoecimento que j\u00e1 estavam em curso foram agravados nos per\u00edodos de maior desesperan\u00e7a. Ela tamb\u00e9m destaca que a sa\u00fade mental dos atingidos sofre o impacto dos conflitos familiares, das rupturas, dos processos de separa\u00e7\u00e3o, e das diverg\u00eancias no processo de reassentamento.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um sofrimento relacionado com esse processo de adapta\u00e7\u00e3o, com a espera pelo reassentamento, com o tempo prolongado envolvendo as negocia\u00e7\u00f5es. Alguns est\u00e3o diretamente envolvidos na luta pela garantia de direitos. \u00c9 uma rotina de muitas reuni\u00f5es e compromissos, o que \u00e9 cansativo&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais (MPMG), a quest\u00e3o merece ainda mais aten\u00e7\u00e3o. &#8220;Ajuizamos h\u00e1 cerca de 4 meses uma a\u00e7\u00e3o especificamente sobre sa\u00fade dos atingidos. Temos audi\u00eancia marcada para o dia 8 de novembro. Esperamos chegar a um acordo, mas se n\u00e3o houver, mais a frente, o juiz ter\u00e1 que julgar&#8221;, diz o promotor Guilherme Meneghin. Segundo ele, a equipe designada est\u00e1 sendo insuficiente e a Funda\u00e7\u00e3o Renova precisa ampliar os repasses ao munic\u00edpio para novas contrata\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>Al\u00e9m do medicamento<\/h2>\n<p>Para a diretora-executiva de engajamento, participa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento institucional da Funda\u00e7\u00e3o Renova, Andrea Aguiar Azevedo, al\u00e9m da suplementa\u00e7\u00e3o na sa\u00fade p\u00fablica dos munic\u00edpios, \u00e9 preciso buscar solu\u00e7\u00f5es para al\u00e9m dos medicamentos.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos atuando, por exemplo, atrav\u00e9s da oferta de trabalho e da socializa\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os de conv\u00edvio, como a Casa do Saber, onde os atingidos de Mariana t\u00eam a chave, podem ir l\u00e1 fazer festas, reuni\u00f5es, cursos, cerim\u00f4nias&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 do Nascimento de Jesus, conhecido como Zezinho do Bento, acredita que o melhor rem\u00e9dio \u00e9 a casa pronta. Em sua opini\u00e3o, os atrasos no reassentamento geraram desconfian\u00e7a e est\u00e3o diretamente ligados a alguns casos de depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos 73 anos, ele \u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria de Bento Rodrigues e tem feito o esfor\u00e7o de ir todos os dias \u00e0 obra. A reconstru\u00e7\u00e3o do distrito, cuja conclus\u00e3o era prevista inicialmente para o in\u00edcio do ano que vem, come\u00e7ou apenas em julho deste ano. A entrega est\u00e1 estimada para agosto de 2020.<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea ficar dentro de casa, a tend\u00eancia \u00e9 a depress\u00e3o mesmo. Eu tento motivar as pessoas. Na semana passada, trouxe uma senhora de 80 anos. Ela ficou satisfeita e voltou segura de que a casa dela vai sair. Acho que \u00e9 um caso a menos de depress\u00e3o&#8221;, diz Zezinho do Bento.<\/p>\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu cheguei a um quadro alguns meses atr\u00e1s que parecia que viver ou morrer era a mesma coisa. Perdi a vontade, a perspectiva foi a zero. Mas quando tenho esses pensamentos, eu lembro do meu pai que est\u00e1 com 88 anos e vai precisar muito de mim ainda. N\u00f3s mor\u00e1vamos a 10 metros de dist\u00e2ncia. 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