{"id":114672,"date":"2018-08-11T15:15:26","date_gmt":"2018-08-11T18:15:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=114672"},"modified":"2018-08-11T15:15:26","modified_gmt":"2018-08-11T18:15:26","slug":"cinema-negro-ganha-forca-no-festival-de-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=114672","title":{"rendered":"Cinema negro ganha for\u00e7a no Festival de Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>O Festival de Bras\u00edlia recebeu este ano inscri\u00e7\u00f5es de maior n\u00famero de filmes dirigidos por negros e conta com nova premia\u00e7\u00e3o, espec\u00edfica para contemplar a tem\u00e1tica negra no cinema. O Pr\u00eamio Z\u00f3zimo Bulbul foi anunciado durante a apresenta\u00e7\u00e3o dos selecionados para a edi\u00e7\u00e3o deste ano, que acontece entre os dias 14 e 23 de setembro na capital federal.<br \/>\n\u201cO pr\u00eamio vai destacar um filme dentro da programa\u00e7\u00e3o, a partir de crit\u00e9rios da presen\u00e7a e for\u00e7a da representa\u00e7\u00e3o das personagens, da hist\u00f3ria e de uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que ser\u00e3o discutidas pelo j\u00fari para buscar esse destaque do filme a partir das quest\u00f5es negras, presentes na tela das produ\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o exibidas\u201d, anunciou o diretor art\u00edstico do festival, Eduardo Valente, na \u00faltima quarta-feira (8).<\/p>\n<p>Este ano foram inscritos mais filmes sobre a tem\u00e1tica ,e eles aparecem tamb\u00e9m com um percentual maior entre os filmes selecionados, segundo o diretor. Dos filmes inscritos para esta edi\u00e7\u00e3o do festival, 68% foram dirigidos por brancos e 11% por negros. Com rela\u00e7\u00e3o aos filmes selecionados para a mostra competitiva, os percentuais ficam em 61% de brancos, 28% de negros e 9% que n\u00e3o quiseram declarar.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Debate<\/span><\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o anterior do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro foi marcada por forte discuss\u00e3o sobre a representa\u00e7\u00e3o de pessoas negras nas telas de cinema, assim como sua participa\u00e7\u00e3o nas diferentes etapas da realiza\u00e7\u00e3o de uma obra audiovisual, em especial no roteiro e dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O debate aumentou com o longa-metragem Vazante, de Daniela Thomas, criticado pelo papel secund\u00e1rio atribu\u00eddo aos personagens negros, em uma trama com recorte hist\u00f3rico que aborda o per\u00edodo da escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Valente acredita que a discuss\u00e3o espec\u00edfica sobre o filme de Thomas ganhou dimens\u00e3o maior por uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias, mas considera que o debate dessa quest\u00e3o j\u00e1 se desenhava pelo menos desde a edi\u00e7\u00e3o anterior, de 2016, que contou com uma mesa de discuss\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o das minorias \u00e9tnicas e raciais.<\/p>\n<p>\u201cA dimens\u00e3o principal, que nos chamou a aten\u00e7\u00e3o positivamente e que acho que teve a ver um pouco com o que aconteceu no ano passado &#8211; n\u00e3o quero superdimensionar por entender que aquilo \u00e9 parte de um processo -, foi o aumento realmente percentual, a for\u00e7a e de qualidade inclusive da produ\u00e7\u00e3o apresentada por profissionais negros atr\u00e1s das c\u00e2meras\u201d, afirmou Valente.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Pr\u00eamios<\/span><\/p>\n<p>O diretor art\u00edstico relaciona o aumento das produ\u00e7\u00f5es inscritas por diretores negros este ano ao fato de filmes com essa tem\u00e1tica terem sido premiados na edi\u00e7\u00e3o do ano anterior e considera essencial que esses trabalhos estejam em primeiro plano nos festivais de cinema.<\/p>\n<p>\u201cA gente acha que isso tem uma for\u00e7a simb\u00f3lica de representa\u00e7\u00e3o da autoimagem, de possibilidade de quebrar esse quadro hist\u00f3rico de invisibilidade.O festival n\u00e3o pode estar distante dessa dimens\u00e3o essencial, que \u00e9 uma demanda do pr\u00f3prio criador negro, interessado em mudar essa capacidade de se perceber capaz ou em igualdade de condi\u00e7\u00f5es no sentido criativo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O diretor Marcos Carvalho acredita que a nova premia\u00e7\u00e3o proporciona maior confian\u00e7a aos profissionais negros e incentiva a inscri\u00e7\u00e3o desses filmes nos festivais. \u201cIsso aumenta a cren\u00e7a no realizador negro, de que \u00e9 poss\u00edvel inscrever e ver seu filme selecionado, porque sempre existe uma desconfian\u00e7a muito grande de eventuais panelas. \u00c9 uma iniciativa que combina com o atual contexto, tanto de filmes que est\u00e3o sendo exibidos em Bras\u00edlia, o debate que aconteceu no ano passado, e essa efervesc\u00eancia do cinema e da cultura negra de forma geral\u201d.<\/p>\n<p>Ao lado de seu irm\u00e3o g\u00eameo Eduardo Carvalho, ele recebeu o pr\u00eamio de melhor dire\u00e7\u00e3o no ano anterior com o curta-metragem Chico (2016-RJ). Os irm\u00e3os Carvalho participam novamente desta edi\u00e7\u00e3o com outro curta, o filme Eu, Minha M\u00e3e e Wallace.<\/p>\n<p>\u201cA gente participou no ano passado e saiu de l\u00e1 extremamente animado, foi uma experi\u00eancia muito enriquecedora. A gente estava sem nenhum projeto, e desenvolvemos esse curta com o objetivo de tentar chegar em Bras\u00edlia novamente, vimos as datas e tra\u00e7amos esse objetivo com a equipe\u201d, contou Marcos Carvalho \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>A exibi\u00e7\u00e3o de Chico na mostra competitiva do ano anterior marcou a estreia dos irm\u00e3os Carvalho no Festival de Bras\u00edlia. Com 25 anos, eles est\u00e3o come\u00e7ando a trajet\u00f3ria nos festivais de cinema. \u201cA gente t\u00e1 come\u00e7ando a entender esse clima agora, vai ser interessante entender melhor as reverbera\u00e7\u00f5es do que aconteceu no ano passado. Estamos come\u00e7ando a entender esse circuito de festivais\u201d, disse Carvalho.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Momento atual<\/span><\/p>\n<p>Para a diretora Glenda Nic\u00e1cio, as discuss\u00f5es que ocorreram na edi\u00e7\u00e3o anterior do festival eram urgentes e representam o momento atual dos negros no pa\u00eds, com pol\u00edticas p\u00fablicas de acesso a universidades e de regionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, assim com o barateamento dos equipamentos e acesso \u00e0s tecnologias digitais.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o v\u00e1rios fatores que fizeram com que esse p\u00fablico fosse se modificando e mudando de lugar. Quem antes era apenas p\u00fablico, hoje tamb\u00e9m \u00e9 produtor, tamb\u00e9m pensa cinema, tem acesso e pode fazer. Isso \u00e9 transformador, porque faz com que coisas que aparentemente eram muito naturais comecem a ser questionadas\u201d, afirmou \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>Ela acredita que esses fatores possibilitam uma diversidade de voz e conte\u00fado na produ\u00e7\u00e3o audiovisual brasileira e que o pr\u00eamio Z\u00f3zimo Bulbul demarca esse momento de discuss\u00e3o sobre o papel do negro no cinema brasileiro, al\u00e9m da discuss\u00e3o que permeou a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do festival.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um posicionamento pol\u00edtico do festival e das pessoas que, de certa forma, passam por ele e o cercam. Esses temas n\u00e3o podem ficar como discuss\u00f5es de um filme ou demarcadas por um debate espec\u00edfico. Eles precisam ser cotidianos, incorporados em nossa pr\u00e1tica de pensar cinema, questionar, fazer curadoria, assistir e avaliar os filmes, seja voc\u00ea espectador, produtor ou jornalista\u201d, observou.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Caf\u00e9 com Canela<\/span><\/p>\n<p>Ao lado de Ary Rosa, Nic\u00e1cio dirigiu o longa-metragem Caf\u00e9 com Canela, escolhido o melhor longa-metragem pelo j\u00fari popular na edi\u00e7\u00e3o de 2017. O filme tem, al\u00e9m da diretora, todo o elenco formado por negros. Eles est\u00e3o de volta este ano na mostra competitiva, com um novo longa-metragem, Ilha, que j\u00e1 estava sendo filmado durante o festival passado.<\/p>\n<p>A equipe, parte dela presente em Caf\u00e9 com Canela, esperou no set de filmagem, no interior da Bahia, o retorno dos diretores que estavam em Bras\u00edlia participando do festival para concluir as grava\u00e7\u00f5es. Para a diretora, a estreia em Bras\u00edlia, com uma premia\u00e7\u00e3o do j\u00fari popular, deu mais seguran\u00e7a \u00e0 equipe e contagiou as filmagens do novo longa.<\/p>\n<p>\u201cEstar em Bras\u00edlia com Caf\u00e9 era uma possibilidade de reconhecimento e, por estar em processo de outro filme, uma possibilidade tamb\u00e9m de seguran\u00e7a e de generosidade com a equipe. A grava\u00e7\u00e3o do Ilha ficou contagiada por esse esp\u00edrito de muita celebra\u00e7\u00e3o e certeza de que caminhamos juntos em uma dire\u00e7\u00e3o e sendo vistos\u201d, afirmou Glenda.<\/p>\n<p>Formados em cinema pela Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia, os diretores fundaram a produtora independente Rosza Filmes, em Cachoeira (BA), em 2011, e estrearam na dire\u00e7\u00e3o de longa-metragem com Caf\u00e9 com Canela. A primeira exibi\u00e7\u00e3o nacional do filme ocorreu no Festival de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cPartindo de uma produtora do interior da Bahia, totalmente fora do eixo principal, participar do festival nos deu um \u00e2nimo com certeza. Bras\u00edlia trouxe esse recorte de com que p\u00fablico a gente dialoga. Esse cinema que n\u00f3s estamos fazendo n\u00e3o funciona com todo mundo, funciona pra quem, com quem, quem \u00e9 que se interessa, quem \u00e9 que \u00e9 tocado?. Eu acho que essa \u00e9 a maior coisa que Bras\u00edlia trouxe nesse processo do Ilha\u201d, afirmou Glenda.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Apan<\/span><\/p>\n<p>Viviane Ferreira, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), considera que houve muito esfor\u00e7o em discutir os equ\u00edvocos de Vazante, em detrimento de outras produ\u00e7\u00f5es como Caf\u00e9 com Canela (BA) e N\u00f3 do Diabo (PB), de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Ab\u00e9 e Jh\u00e9sus Tribuz, que apresentaram contribui\u00e7\u00f5es positivas sobre o papel do negro no cinema.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 n\u00edtido que tratar as personagens negras da forma como o Vazante tratou, sem profundidade, j\u00e1 n\u00e3o cabe no tempo hist\u00f3rico que a gente vive. Hoje, vivemos um momento muito especial de estar compartilhando com uma gera\u00e7\u00e3o que tem produzido de maneira est\u00e9tica e narrativa, com muita qualidade e sem disposi\u00e7\u00e3o de dar um passo atr\u00e1s. S\u00e3o coisas que deixam a gente muito feliz, na perspectiva de integrantes do movimento de cinema negro\u2019, disse ela.<\/p>\n<p>A Apan e o Centro Afrocarioca de Cinema foram as entidades que propuseram ao Festival de Bras\u00edlia a cria\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Z\u00f3zimo Bulbul. \u201cNo curso dos debates, no ao passado, sobre a\u00e7\u00f5es afirmativas e representatividade, o Festival de Bras\u00edlia se mostrou como um palco potente e corajoso para o enfrentamento dos debates raciais no audiovisual\u201d, acrescentou Viviane.<\/p>\n<p>A Apan surgiu em 2016, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de di\u00e1logos e debates entre realizadores que frequentavam o Encontro de Cinema Negro, \u00c1frica Brasil e Caribe &#8211; criado por Z\u00f3zimo Bulbul em 2007 no Rio de Janeiro &#8211; para atuar frente \u00e0 desigualdade racial no setor audiovisual brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cZ\u00f3zimo foi um pioneiro nessa hist\u00f3ria toda, nesse movimento que est\u00e1 acontecendo hoje da juventude negra e dessa necessidade que, n\u00e3o s\u00f3 essa juventude, mas acho que o povo brasileiro est\u00e1 tendo de ver o negro representado na tela, ele por ele mesmo\u201d, considerou Biza Vianna, companheira de Z\u00f3zimo.<\/p>\n<p>Diretora do Centro Afro Carioca de Cinema, ela lembrou que as principais refer\u00eancias de Z\u00f3zimo eram os diretores do Cinema Novo, todos brancos, e considera que a milit\u00e2ncia do cineasta pelo cinema negro deixou como legado um referencial para as novas gera\u00e7\u00f5es. \u201cEssa gera\u00e7\u00e3o tem uma refer\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 a partir do olhar euroc\u00eantrico, \u00e9 a partir da valoriza\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio olhar. Ent\u00e3o fico muito feliz com esse pr\u00eamio porque \u00e9 a pr\u00f3pria juventude reconhecendo esse protagonismo dele nele mesmo e por eles mesmos\u2019, afirma.<\/p>\n<p>Z\u00f3zimo Bulbul (1937-2013) \u00e9 autor de filmes como Alma no Olho (1973) &#8211; sua estr\u00e9ia como diretor &#8211; e Aboli\u00e7\u00e3o (1988), ganhador dos pr\u00eamio de melhor roteiro e fotografia do Festival de Bras\u00edlia daquele ano. O produtor atuou em mais de 30 filmes incluindo Cinco Vezes Favela (1962) e Terra em Transe (1968), dirigiu nove, sendo o \u00faltimo deles Renascimento Africano, feito a convite do governo do Senegal por ocasi\u00e3o dos 50 anos de independ\u00eancia daquele pa\u00eds. O Encontro do Cinema Negro Brasil, \u00c1frica e Caribe, criado por Z\u00f3zimo, completou 10 anos no ano passado, com mais de 80 produ\u00e7\u00f5es brasileiras e internacionais de cineastas negros premiados e de jovens revela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Festival de Bras\u00edlia recebeu este ano inscri\u00e7\u00f5es de maior n\u00famero de filmes dirigidos por negros e conta com nova premia\u00e7\u00e3o, espec\u00edfica para contemplar a tem\u00e1tica negra no cinema. 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