{"id":110012,"date":"2018-07-01T22:34:33","date_gmt":"2018-07-02T01:34:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diarioregionaljf.com.br\/?p=110012"},"modified":"2018-07-01T22:34:53","modified_gmt":"2018-07-02T01:34:53","slug":"escavacoes-podem-revelar-cemiterio-de-escravos-africanos-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=110012","title":{"rendered":"Escava\u00e7\u00f5es podem revelar cemit\u00e9rio de escravos africanos no Rio"},"content":{"rendered":"<p>Quem atravessa o Largo de Santa Rita, no centro da cidade do Rio de Janeiro, depara-se com uma das heran\u00e7as da escravid\u00e3o de africanos no Brasil. Ali, a sociedade civil e os historiadores apontam o que pode ser um dos primeiros cemit\u00e9rios para africanos rec\u00e9m-chegados ao pa\u00eds, os chamados pretos novos.<\/p>\n<p>Os registros indicam que os africanos mortos nos tumbeiros ou ao chegarem eram enterrados em frente \u00e0 Igreja de Santa Rita, atual Largo de Santa Rita, entre 1722 e 1769. O local ficava perto do mercado de escravos da Pra\u00e7a XV e distante do Largo da Carioca, onde ficava a nobreza. Os corpos teriam sido descartados em covas rasas, muitos, cobertos de doen\u00e7as, como as bexigas de var\u00edola, provocadas pelas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es do translado. A igreja serviria como local de triagem dos negros, antes de serem vendidos no Cais do Valongo, na zona portu\u00e1ria do Rio.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das vers\u00f5es que pode vir \u00e0 tona com as escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas no local, que antecedem a instala\u00e7\u00e3o do \u00faltimo trecho do Ve\u00edculo Leve sobre Trilhos (VLT), ligando a Central do Brasil \u00e0 Avenida Marechal Floriano. As obras est\u00e3o previstas para come\u00e7ar no pr\u00f3ximo m\u00eas e aguardam a autoriza\u00e7\u00e3o do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan). O local foi interditado h\u00e1 uma semana e a igreja est\u00e1 sendo escorada para n\u00e3o sofrer danos.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro, no entanto, como as pe\u00e7as arqueol\u00f3gicas e o pr\u00f3prio s\u00edtio ser\u00e3o tratados, quest\u00f5es que preocupam organiza\u00e7\u00f5es do movimento negro. \u201cEntendemos que todo o local \u00e9 um espa\u00e7o de refer\u00eancia para nossa ancestralidade. Passando por cima, ou passando por baixo [o VLT], escavando ou n\u00e3o escavando, \u00e9 uma \u00e1rea sens\u00edvel para n\u00f3s e queremos, de cara, a preserva\u00e7\u00e3o\u201d, disse o presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), Luiz Eduardo Oliveira Negrogun. Na \u00faltima quinta-feira, 28 de junho, ele visitou o canteiro de obras a convite do Iphan, acompanhado de engenheiros do VLT e de uma equipe de arqueologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>APAGAMENTO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Os ativistas reclamam que a prefeitura, ao estabelecer o trajeto do VLT, e o Iphan, ao autorizar as obras, n\u00e3o levou em considera\u00e7\u00e3o o fato de o local nem sequer ser sinalizado como marco de um crime contra a humanidade. \u201cAo pular esta etapa, a sociedade pode repetir o erro de apagar a mem\u00f3ria da escravid\u00e3o\u201d, alertou Negrogun.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a mesma preocupa\u00e7\u00e3o do jornalista Rubem Confete, profundo conhecedor dos marcos afrobrasileiros no Rio. \u201cO objetivo deles \u00e9 fazer os trilhos para o VLT, n\u00e3o est\u00e3o interessados pela hist\u00f3ria. No Cais do Valongo, tiraram quatro ou cinco cont\u00eaineres de utens\u00edlios, pe\u00e7as religiosas, e est\u00e1 tudo escondido, n\u00e3o temos acesso. Esse \u00e9 um problema. O segundo \u00e9: se a arqueologia for realmente trabalhar, vai atrasar a obra. \u00c9 isso o que querem?\u201d, questiona. A previs\u00e3o \u00e9 que o novo trecho do VLT seja entregue at\u00e9 o fim de 2018.<\/p>\n<p>Confete, no entanto, acredita que as escava\u00e7\u00f5es no Largo de Santa Rita encontrem um cemit\u00e9rio comum, onde eram enterrados membros da irmandade negra da Igreja de Santa Rita. \u201cEra uma irmandade onde o negro predominava. Era um local de reuni\u00e3o. Al\u00e9m de frequentarem as missas, os africanos e seus descendentes reconstru\u00edram ali la\u00e7os de amizade\u201d, explicou. Por ser mais afastada do centro, Santa Rita teria sido uma das primeiras igrejas onde essa conviv\u00eancia era poss\u00edvel, reunindo africanos libertos, lideran\u00e7as religiosas e escravizados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>TESOUROS<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Segundo projeto apresentado pela consultoria Artefato ao Iphan e dispon\u00edvel na internet, as escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas, que fazem parte das contrapartidas do VLT, pretendem identificar e delimitar o cemit\u00e9rio de pretos novos, conservando o m\u00e1ximo poss\u00edvel de pe\u00e7as no local. Conforme o documento, que corrobora a tese de que o cemit\u00e9rio era de pretos novos, todo o material retirado ser\u00e1 enviado para a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).<\/p>\n<p>A coordenadora cient\u00edfica das escava\u00e7\u00f5es, a professora p\u00f3s-doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Dulce Gaspar, n\u00e3o foi autorizada pelo cons\u00f3rcio a dar entrevistas. No entanto, na visita ao canteiro de obras, quinta-feira, 28 de junho, explicou \u00e0 comiss\u00e3o de ativistas que tudo que h\u00e1 sobre o cemit\u00e9rio de pretos novos s\u00e3o hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muita coisa remexida. N\u00e3o penso em nada m\u00e1gico, que vamos abrir e encontrar tudo organizado\u201d, declarou. \u201cMas se n\u00f3s fizermos uma demarca\u00e7\u00e3o [do cemit\u00e9rio] e eu, como arque\u00f3loga, n\u00e3o posso ir al\u00e9m disso, o que tenho para dar, desculpem-me a presun\u00e7\u00e3o, \u00e9 precioso: saber onde come\u00e7a e onde termina e em quais condi\u00e7\u00f5es est\u00e1\u201d, declarou Maria Dulce.<\/p>\n<p>As primeiras sondagens arqueol\u00f3gicas resgataram faian\u00e7a (lou\u00e7a de barro coberta por esmalte) fina, portuguesa, porcelana, fragmentos de cachimbo de cer\u00e2mica e de caulim, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de fragmentos de ossos humanos como cr\u00e2nio, dentes e t\u00edbia.<\/p>\n<p>O arquiteto e urbanista Jo\u00e3o Nara J\u00fanior concorda que definir os limites do cemit\u00e9rio, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es urbanas na regi\u00e3o ser\u00e1 um grande passo. Ele fez mestrado sobre a Igreja de Santa Rita e pesquisa o cemit\u00e9rio do largo para a tese de doutorado na UFRJ. \u201cEssa quest\u00e3o da exclusividade dos enterros [s\u00f3 de pretos novos], temos que relativizar. Teoricamente, eles poderiam ser enterrados em qualquer lugar. Mas, de fato, havia pretos novos ali\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo Nara J\u00fanior, h\u00e1 refer\u00eancias nos autos da C\u00e2mara de Vereadores do Rio sobre o sepultamento de pretos novos no local. Ele cita como uma das evid\u00eancias mais emblem\u00e1ticas a anota\u00e7\u00e3o de uma pessoa queixando-se da indignidade de enterrar pessoas em plena rua. \u201cTinha at\u00e9 um cruzeiro no local para que as pessoas orassem por essas almas\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_110013\" style=\"width: 764px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-110013\" class=\"wp-image-110013 size-full\" src=\"http:\/\/diarioregionaljf.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/largostarita.jpg\" alt=\"\" width=\"754\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/largostarita.jpg 754w, https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/largostarita-300x200.jpg 300w, https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/largostarita-360x240.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><p id=\"caption-attachment-110013\" class=\"wp-caption-text\">O Iphan informou que s\u00f3 se pronunciar\u00e1 ap\u00f3s o resultado conclusivo da arqueologia. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>PRESERVA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Procurado para esclarecer o que ser\u00e1 feito no s\u00edtio, o Iphan respondeu que n\u00e3o se pronunciar\u00e1 antes do resultado conclusivo da arqueologia. O \u00f3rg\u00e3o levantou d\u00favidas sobre a exist\u00eancia de cemit\u00e9rio de pretos novos ou de escravizados, apesar das refer\u00eancias apontadas pelos especialistas.<\/p>\n<p>A prefeitura do Rio informou que n\u00e3o pode antecipar nenhuma medida de preserva\u00e7\u00e3o ou de sinaliza\u00e7\u00e3o. Por meio da assessoria, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Regi\u00e3o do Porto explicou que qualquer a\u00e7\u00e3o depende das descobertas e das recomenda\u00e7\u00f5es a serem feitas pelo Iphan, mas ressaltou que todas as sugest\u00f5es ser\u00e3o seguidas.<\/p>\n<p>Todas as escava\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas no Porto Maravilha, regi\u00e3o formada por uma s\u00e9rie de s\u00edtios hist\u00f3ricos e locais de refer\u00eancias que comp\u00f5em o Circuito Hist\u00f3rico e Arqueol\u00f3gico da Celebra\u00e7\u00e3o da Heran\u00e7a Africana. Al\u00e9m do Cais do Valongo, registrado como Patrim\u00f4nio da Humanidade em 2017, a regi\u00e3o abriga o Instituto dos Pretos Novos, que preserva descobertas do cemit\u00e9rio de pretos novos do Valongo. O local foi descoberto na d\u00e9cada de 1990, ap\u00f3s moradores tentarem reformar a pr\u00f3pria casa e se depararem com ossos humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem atravessa o Largo de Santa Rita, no centro da cidade do Rio de Janeiro, depara-se com uma das heran\u00e7as da escravid\u00e3o de africanos no Brasil. Ali, a sociedade civil e os historiadores apontam o que pode ser um dos primeiros cemit\u00e9rios para africanos rec\u00e9m-chegados ao pa\u00eds, os chamados pretos novos. Os registros indicam que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":110014,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[302,439],"tags":[],"class_list":["post-110012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil-mundo","category-ultima-hora"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/110012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=110012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/110012\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/110014"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=110012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=110012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=110012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}