{"id":106402,"date":"2018-06-03T06:00:27","date_gmt":"2018-06-03T09:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/diarioregionaljf.com.br\/?p=106402"},"modified":"2018-05-30T18:08:07","modified_gmt":"2018-05-30T21:08:07","slug":"uma-fotografia-na-parede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/?p=106402","title":{"rendered":"Uma fotografia na parede"},"content":{"rendered":"<p>Os roteiros mais lindos de Belo Horizonte s\u00e3o os que n\u00e3o existem. Aqui a poesia morou, viveu e fez escola. Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Em\u00edlio Moura, Gustavo Capanema e Milton Campos foram os primeiros, mostraram o caminho e acenderam a chama. Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Helio Pelegrino e Paulo Mendes Campos marcaram encontro e sopraram o velho vento da aventura. Em uma sucess\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es, jovens aqui nascidos e ungidos naquilo que j\u00e1 povoava a cidade, traduziram o que pairava sobre a capital que tinha uma voca\u00e7\u00e3o natural para a arte. Era a vez do lend\u00e1rio Clube da Esquina, que est\u00e1 aqui at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Como testemunha de tudo que viu bem de perto, o viaduto de Santa Tereza assistiu a todas essas esta\u00e7\u00f5es, fazendo ponte entre a cidade que existia e a poesia que escorria pelas ruas. Cada gera\u00e7\u00e3o cantou ao seu modo a saudade que havia dentro de cada um, o vazio que sentimos aqui dentro sem saber ao certo do que \u00e9. Acredito na for\u00e7a imanente das coisas que n\u00e3o s\u00e3o deste mundo e se edificam aqui s\u00f3 para termos certeza de que elas n\u00e3o existem. Assim vejo os arcos do viaduto de Santa Tereza como um umbral, que inspira a todos que passam por sobre eles. Foi assim com Drummond, que depois de passar a noite subindo Bahia e descendo Floresta, passava por cima dos arcos no caminho de sua casa, que ficava na Rua Silva Jardim, 107. O relato \u00e9 real do guarda que o flagrou l\u00e1 no alto do arco de madrugada e lhe deu voz de pris\u00e3o. Drummond respondeu: &#8220;Tudo bem, mas se quiser me prender ter\u00e1 que vir aqui&#8221;. O guarda que era desprovido de primaveras, temeu. Esperou por um tempo e foi embora. Drummond, pouco tempo depois, desceu e seguiu seu caminho natural, povoado de estrelas.<\/p>\n<p>Fernando Sabino deu continuidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o transcendental dos primeiros anos da capital e subiu nos arcos buscando o infinito. Tornou-se um encantado, para a vida toda. Depois, cheios de esquinas e muitos horizontes, os meninos de Santa Tereza liderados por L\u00f4 Borges &#8211; ap\u00f3s curtirem o centro efervescente da cidade &#8211; voltavam sem bonde para Santa Tereza, depois de colher algumas estrelas ca\u00eddas da cortina da noite. Assim Belo Horizonte se edificava, erguia ao c\u00e9u, sem ser horizontal.<\/p>\n<p>Retomando os caminhos Drummondianos na Belo Horizonte eterna, um grupo de poetas fez o mesmo percurso do jovem Carlos e pode ver como a cidade definha de forma uniforme. O viaduto tornou-se um flagelado, cheio de buracos e remendos, com seus postes carcomidos pelo tempo e a infal\u00edvel insensibilidade humana. N\u00e3o lembra, nem de longe, que foi um marco na Belo Horizonte que crescia, um s\u00edmbolo da modernidade, quase uma ponte para o futuro. Como testemunha de todas essas coisas que faziam a vida da cidade e que n\u00e3o existe mais, o viaduto de Santa Tereza tornou-se um fantasma desolado, um reles ignaro esquecido, que todos passam por ele e nem o v\u00eaem.<\/p>\n<p>Assim vai a cidade, ficando pobre de n\u00f3s mesmos, com seus homens do poder destruindo os nossos sonhos, acabando com nossas lembran\u00e7as, assassinando todas as nossas esperan\u00e7as&#8230; E como d\u00f3i.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os roteiros mais lindos de Belo Horizonte s\u00e3o os que n\u00e3o existem. Aqui a poesia morou, viveu e fez escola. Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Em\u00edlio Moura, Gustavo Capanema e Milton Campos foram os primeiros, mostraram o caminho e acenderam a chama. Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Helio Pelegrino e Paulo Mendes Campos marcaram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":96,"featured_media":106403,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[291],"tags":[],"class_list":["post-106402","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-versoes-artigos-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/106402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/96"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=106402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/106402\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/106403"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=106402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=106402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioregionaldigital.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=106402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}