Arnaldo Niskier

No livro “Poesia e Filosofia”, de 2002, Antonio Cícero demonstra relações complexas, mas os discursos guardam grandes semelhanças. O poético, segundo ele, embora enraizado no real, tem sua finalidade em si mesmo. Assim, pensa sobre o mundo e pensa o mundo. A força do pensamento aproxima filosofia e poesia, com os seus ensaios, tratados, poemas e canções. Cada um com suas especificidades.

Explica Cícero que são diferentes, uma da outra, pois a poesia é ciumenta e, citando Guimarães Rosa, “a filosofia mata a poesia”. Segundo Cicero, “a poesia amolece a filosofia”, mas há certo parentesco entre os dois discursos, mesmo nessa época em que, com a Internet, os computadores, os celulares, os tablets etc aceleram a comunicação entre as pessoas.

Há uma importante razão pela qual os filósofos gregos Xenófanes, Parmênides e Empédocles escreveram em versos. Na Grécia antiga, as obras em prosa surgiram muito depois das obras em verso. A prosa, como gênero literário, surgiu bem depois da poesia. Sabe-se que o filósofo Sócrates jamais escreveu coisa alguma. Por isso, Platão afirmava que “a verdadeira filosofia está na alma do poeta, e não nos livros”, quando se referia a Sócrates.

Pode-se inferir que os anunciados poéticos não são proposicionais. Tomemos como exemplo o poema de Drummond “No meio do caminho”:

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho”.

Drummond, no caso, trabalha sobre uma pseudoproposição.

O poeta moderno é capaz de empregar as formas que bem entender para fazer os seus poemas, mas não pode deixar de saber que eles constituem apenas algumas das formas possíveis; e o crítico deve reconhecer esse fato.

“Peçamos ao poeta novidade”, diz Rimbaud. “O poeta é aquele que inventa novas alegrias, ainda que difíceis de suportar”, diz Apollinaire. Conclui-se que um poema existe quando consiste num discurso reiterável.

Já a Filosofia, para Heidegger, “deve pesar as coisas, ponderá-las, dar-lhes o devido peso.” Se, como diz Goethe, os gregos sonharam mais esplendidamente o sonho da vida é porque – agora é Cicero quem diz- “sonharam sonhos de poetas e não de profetas, pastores ou sacerdotes”.

Em suma, a finalidade da poesia é o poema, isto é, a obra poética. O poema é uma obra feita para ser fruída esteticamente. Já a finalidade da filosofia não é a obra filosófica. Esta, aliás, não é para ser fruída esteticamente. Ao contrário, a finalidade da obra filosófica é a manifestação – na vida e na obra do filósofo – de uma proposição, tese ou doutrina filosófica.

Ao estudar a obra do filósofo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729 — 1781), considerado um dos maiores representantes do Iluminismo, conhecido por sua crítica ao anti-semitismo, Antonio Cicero nos remete ao seu contemporâneo Moisés Mendelssohn, avô de Félix Mendelssohn-Bartoldy, um dos nossos maiores compositores clássicos, autor da marcha nupcial mais tocada de todos os tempos. Recorro ao meu livro sobre o iluminismo judaico (Haskalá) para tocar nesse assunto.

Segundo declarou numa de suas entrevistas, um dos maiores prazeres do poeta Antonio Cicero é conversar com o amigo Caetano Veloso: “Quando conheci Caetano, em Londres, em 1969, o tropicalismo já tinha acabado. Caetano já tinha se revelado um grande poeta, um grande artista. Eu era apenas um estudante de filosofia. Aprendi muito com ele”.

É de Caetano Veloso, pouco antes do início do tropicalismo, em 1967, a famosa declaração sobre a linha evolutiva da música popular brasileira: “Dizer que samba só se faz com frigideira, tamborim e um violão sem sétimas e nonas não resolve o problema. João Gilberto tem contrabaixo, violino, trompa, sétima, nonas e tem samba. A retomada da tradição da MPB deverá ser feita na medida em que João Gilberto fez”.

A partir de 1967, samba, bossa nova e tropicalismo serão os três pontos entre os quais será traçada a linha da evolução da MPB. Um fator extremamente importante, quando se pensa na influência que a bossa nova exerceu, é a qualidade de alguns artistas que a produziam. Eram letristas que liam poesia.

O samba, sem dúvida, tem grandes poetas, mas a bossa nova abriu para uma geração inteira essa possibilidade de fazer música ao mesmo tempo popular e contemporânea. Há um parentesco da posição de Caetano com a de Kandinsky. Caetano confessa sentir-se atraído pelas coisas menos sérias e que assustariam os seus colegas da bossa nova.

Para Antonio Cicero, os dois poetas brasileiros mais importantes foram Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, este com o seu estilo vigoroso e singular. Assim escreveu os seus livros “O Engenheiro”, “Psicologia da composição”, “Paisagens com figuras”, “Uma faca só lâmina”, “Serial”, “A educação pela pedra”, “A escola das facas”, “Agrestes”. Cabral não temia nada, só proscrevia aquilo que pensava ter superado.

Já Drummond ressaltava a importância da ironia: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos”.

O jovem Drummond foi, é claro, vanguardista. “No meio do caminho” talvez seja o poema mais famoso do modernismo brasileiro:

religiosa. Conota a natureza “sagrada” atribuída a certos textos e autores, recolhidos num “panteão de imortais”.

Em relação ao cânone literário, nenhuma pergunta é respondível sem a possibilidade do equívoco.

 

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